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  Trinta Segundos Sobre Sargodha 

A história de um ás na
Guerra Indo-Paquistanesa em 1965

Muitos pilotos conseguiram abater mais de um avião inimigo em uma única missão. Alguns poucos, tornaram-se ases, também em uma única missão. Mas ninguém, na história dos combates aéreos, conseguiu, em apenas 30 segundos, abater quatro aviões inimigos, como o Wing Commander Mohammed Alam da Força Aérea Paquistanesa (FAP) o fez.

Quando, no final de Agosto de 1965, a disputa entre o Paquistão e a Índia pela região da Kashimira, explodiu em uma guerra, a FAP, equipada com aviões americanos, confrontou-se com um adversário que operava um número muito maior de aeronaves, primordialmente britânicas. A ordem de batalha da FAP era composta de 100 F-86F Sabres, 12 F-104 Starfighters dos quais dois eram F-104B (desarmados, utilizados para vôo duplo), 25 B-57 prioritariamente para reconhecimento e uma dúzia de TF-33 adaptados para ataque ao solo. Essas 141 aeronaves, estavam distribuídas por apenas quatro aeródromos, e contavam com cerca de 30 outras aeronaves de apoio (transportes, treinadores e helicópteros).

Por outro lado a Força Aérea Indiana (FAI), possuía um total de 775 aeronaves, distribuídas por 45 esquadrões. Mais de 500 dessas eram jatos de primeira linha da época, distribuídos em 27 esquadrões de caça e três esquadrões de bombardeio, e incluía 10 MIG-21, 118 Hunters 56, 80 Gnats, 80 Dassault Mystères, 56 Dassault Ouragans, 132 Vampires, 53 Camberras Bombardeios e 7 Camberras de Reconhecimento.

Assim a relação entre as aeronaves de combate da FAP e da FAI era de um para quatro. Simplificadamente, poderíamos dizer que os 10 F-104 paquistaneses seriam equivalentes aos 10 MIG-21 e que os 100 F-86 o seriam em relação aos Hunters. Mas isso não era bem assim, porque os paquistaneses, acreditavam que os seus Sabres seriam uma presa fácil para os Hunters, mais poderosos e melhor armados, mesmo considerando que alguns dos Sabres tinham sido modificados, com a introdução de um flap de bordo de ataque e de um wingtip, para melhorar a manobrabilidade e a performance em altas altitudes.

Contra a FAI, a FAP podia apenas oferecer um alto grau de liderança dos comandantes, uma determinação de sobrevivência nacional e um intenso treinamento. Do ponto de vista técnico, o único trunfo dos paquistaneses era a existência de 22 Sabres, equipados com mísseis infravermelhos Sidewinders. Esses mísseis poderiam suprir parte das deficiências dos Sabres, no que diz respeito à velocidade e razão de subida, em relação aos Hunters, os quais com melhor performance podiam desengajar do combate a qualquer hora. Entretanto, o alcance dos Sidewiders de 3,2 km, tendia a eliminar essa proveitosa manobra. Se os Hunters engajassem em dogfight com os Sabres, teriam que faze-lo na arena desses, que possuíam melhor manobrabilidade a baixas velocidades.

Essa era então, a situação no dia 7 de setembro de 1965, o segundo dia da guerra Indo-Paquistanesa, quando Mohammed Alam, então com 32 anos, estava comandando o Esquadrão 11 de Sabres, lotado na principal base aérea paquistanesa, em Sargodha no Punjab. Com praticamente todos os seus aviões de caça desdobrados nesse aeródromo, a FAP estava alerta para ataques aéreos por parte da FAI, uma vez que foi o Paquistão que começou a ofensiva aérea, com um ataque ao nascer do sol às bases aéreas hindus, no dia anterior.

O Sqd Ldr Alam ao lado de seu Sabre. Note as bandeiras pintadas lado
do cockpit, indicando 9 aviões abatidos no ar e 2 destruídos no solo.

Naquela noite, ataques mútuos realizados por B-57 paquistaneses e por Camberras hindus foram realizados, mas com baixos resultados efetivos. A FAP estava consciente de que o verdadeiro perigo seriam os ataques dos caças hindus realizados à luz do dia. Por isso, antes mesmo do nascer do sol, na manhã do dia 7 de setembro, o então Squadron Leader Alam e alguns de seus pilotos, já se encontravam amarrados e prontos para decolar, aguardando somente o sinal da torre, que recebia informações da rede de radares e de observadores.

Para jatos atacando à baixa altitude, mesmo os mais eficientes sistemas de alarme não são suficientemente precisos para antecipar os mesmos. E foi isso que aconteceu. Seis Mystère IV da FAI, voando ao nível do topo das árvores, atacaram o aeródromo de Sargodha. Inicialmente com foguetes e depois com seus canhões de 30 mm, sem entretanto causarem danos sérios às instalações. Os Starfighters que faziam a patrulha aérea de combate atacaram, derrubando dois, enquanto que outro foi abatido pela antiaérea do aeródromo.

Imediatamente após o ataque, o Sqd Ldr Alam e seu número dois, o Flg Off Massood, decolaram para uma patrulha de combate à 15.000 pés. Cinco minutos depois, foram vetorados para interceptarem um ataque, mas após voarem para leste por 24 km, foram chamados de volta, pois caças hindus já estavam sobre a base de Sargodha..

"Quando estava retornando", lembra-se o Sqd Ldr Alam, "vi quatro Hunters mergulhando para atacar nosso aeródromo. Alijei o tanque de combustível e mergulhei atrás deles, mesmo percebendo que nossa AAA estivesse atirando. Quase que simultaneamente, percebi a presença de mais dois Hunters a umas 1.000 jardas atrás de mim. Abandonei os quatro à frente, puxei o manche e fui em direção a esses dois. Os Hunters desistiram de atacar o aeródromo e esses dois voltaram-se contra nós. Eu estava voando muito mais rápido do que eles - talvez a uns 500 nós - então puxei o nariz do meu Sabre um pouco, para evitar que os ultrapassasse, e fiz uma nova reversão para me aproximar, enquanto eles voavam em direção à Índia".

" Fixando-me no avião mais atrasado, mergulhei em sua direção, embora estivesse diminuindo a distância muito lentamente nesse processo. O Hunter é pouca coisa mais rápido do que o Sabre - talvez no máximo uns 50 nós - mas tem uma melhor aceleração, e por isso pode se afastar mais rapidamente. Como eu estava mergulhando, possuía ainda um pouco mais de velocidade, mas ele ainda estava fora do alcance de minhas metralhadoras, e por issso disparei o primeiro dos meus dois mísseis GAR-8 Sidewinder. O GAR-8 é um míssil infravermelho, que procura o calor emitido pela turbina dos jatos, mas que pode ser afetado pelo retorno do terreno se disparado em um mergulho a baixa altitude. No caso, eu estava muito baixo, e vi quando o míssil bateu no terreno, sem atingir o Hunter".

Um Sabre F-86F-40-NA da Força Aérea Paquistanesa, equipado com dois mísseis Sidewinder GAR-8.

"A região leste de Sardodha é repleta de cabos de alta tensão, alguns deles com alturas de até 45 metros, e quando eu vi os dois Hunters subindo para evitar um desses cabos, disparei o meu segundo míssil. Vi quando o míssil riscou os ares a minha frente, mas não o vi atingindo o alvo. A imagem seguinte que me lembro é de estar ultrapassando um dos Hunters, e quando olhei para trás já vi a aeronave sem o canopy e sem piloto. Imediatamente observei um pára-quedas". O piloto era o Sqd Ldr Onkar Nath Kakar, comandante de um dos esquadrões de Hunters da FAH, e que mais tarde foi feito prisioneiro.

"Eu havia perdido os outros cinco Hunters de vista, mas acreditava que eles estavam por perto e voando lentamente. Tinha combustível suficiente, e podia então voar mais uns 100 km em busca dos Hunters. Logo após cruzar o Rio Chenab, meu ala chamou-me atenção, pois os cinco Hunters estavam à nossa frente, voando uma formatura perfeita a uns 480 nós. Assim que cheguamos à distância de tiro, fomos notado, e todos os cinco fizeram uma curva apertada para a esquerda com uma subida acentuada, manobra essa que os deixou quase que em formatura de cobrinha. Esse foi um erro grave".

"Tudo aconteceu muito rapidamente. Estávamos puxando uns 5g, quase no limite do visor de tiro do Sabre. Acredito que antes de termos completado 270 graus, todos os quatro Hunters haviam sido abatidos. Em todos os casos, havia simplesmente mantido o centro do visor no canopy dos Hunters, para um quase virtual tiro sem deflecção. Quase todos os nossos tiros durante a guerra foram dados com uma deflecção de pelo menos 30 graus".

Um tiro de precisão em jatos é uma tarefa muito difícil, pois os mesmos estão voando a velocidades próximas a do som, mas o Sqd Ldr Alam, durante a guerra, abateu nove aviões inimigos, não tendo que dar mais do que duas rajadas em cada um.

"Desenvolvi uma técnica de dar rajadas muito pequenas - cada uma de meio segundo ou menos de duração. Como o Sabre possuía seis metralhadoras, permitindo um cone de fogo razoável, a primeira rajada era endereçada aos tanques de combustível do inimigo, e a segunda simplesmente fazia com que os Hunters virassem uma bola de fogo. O Sabre carrega cerca de 1600 cartuchos por metralhadora, o que permite uns 15 segundos de fogo contínuo. Pode parecer pouco, mas em um combate aéreo, isto é uma eternidade. Utilizávamos basicamente munição incendiária e a cada cinco cartuchos havia um do tipo de alta penetração. Tenho certeza que após esse combate, retornei a base com mais do que a metade dos cartuchos".

"A quinta vitima dessa missão, começou a soltar fumaça e fez um touneaux à baixa altura. Tentei fazer o mesmo, mas desisti. Retornei o Sabre a uma atitude normal, e a uns 180 metros disparei uma pequena rajada. O Hunter simplesmente se desintegrou na minha frente. Todos os quatro pilotos não se ejetaram".

Como pode uma formação de caças, pilotados por experientes pilotos (três eram Squadron Leaders e três Flight Lt) serem completamente dizimados por um grupo inimigo numericamente inferior e utilizando aviões também tecnicamente inferiores ? "Pilotos de Hunters não acreditarão", diz o Wg Cdr Alam, "pois já os voei na Inglaterra, e eles são aeronaves muito manobráveis".

"Na realidade, os Sabres possuem uma capacidade fantástica de executar curvas. Embora a velocidade de stol com flaps seja de 92 nós, o Sabre é capaz de de voar a 80 nós, desde que esteja fazendo uma curva muito apertada e em descida. O Sabre não erra nos comandos, e é uma pena que não possua mais potência no motor. Supondo que você se antecipou à aeronave oponente, é quase impossível perder um combate aéreo com um Sabre".

"Acredito também que as seis metralhadoras Browning .50, são a melhor combinação possível para um combate aéreo. Mas se os Hunters não tivessem todos virado para a mesma direção, acho que teria tido muito problema. Do modo que fizeram, não tiveram chance. O sexto e último Hunter desapareceu no horizonte, mas soubemos que o piloto ejetou-se devido a problemas no motor".

Na realidade a grande diferença estava dentro do cockpit. A habilidade do Wg Cdr Alam, juntamente com sua experiência no Sabre (ele possuía 1.400 horas do avião no início da guerra) e seu dom natural de tiro aéreo (70% de acerto em média nos treinos) fizeram a balança pender para seu lado. O padrão de treinamento em combate aéreo da Força Aérea do Paquistão, estava e ainda está entre as mais elevadas do mundo. Seus pilotos são altamente treinados e realizam muitas missões de intercâmbio na Inglaterra e nos Estados Unidos, e os resultados são espantosos.

Após 22 dias de combates, a Força Aérea do Paquistão obteve superioridade aérea, embora estivesse muito inferiorizada numericamente. Foram destruídos em combate 35 aviões hindus, enquanto os paquistaneses só perderam sete.