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Emil versus Luftwaffe

Uma história pitoresca
acontecida na 2ª Guerra Mundial

Há 55 anos atrás, em Abril de 1941, uma situação anômala e estranha acontecia nos céus dos Balcãs, quando Messerchmitts Bf-109E equipando um Jagdgruppen da Luftwaffe, ao atacarem a Iugoslávia, viram-se combatendo contra aviões iguais, que equipavam a Real Força Aérea Iugoslava, que os havia adquirido há 18 meses.

"Ataquem todos os 109 com nariz amarelo!". Essa foi a ordem enviada a todos os pilotos de caça e posições da antiaérea iugoslava, horas após a Wehrmacht ter desencadeado a Operação Marita, o ataque à Grécia e à Iugoslávia. O Alto Comando Iugoslavo estava realmente preocupado em emitir tal ordem, pois o numérica e tecnicamente mais importante avião de caça iugoslavo era o Messerchmitts Bf-109E, cuja única diferença em relação aos da Luftwaffe, além da insígnia nacional que à distância era impossível de se distinguir, eram os narizes amarelos que os aviões alemães ostentavam.

Pilotos iugoslavos, tendo ao fundo seus Messerchmitts Bf 109E

O treinamento iugoslavo era precário, e poucos pilotos podiam diferenciar um Bf 109E de qualquer outro avião, com ou sem nariz amarelo. Nas condições caóticas que ocorriam naqueles dias de abril de 1941, a prática comum era, atirar primeiro e confirmar a identificação depois, causando com isso trágicos erros. Mas se a utilização de um mesmo tipo de avião de caça por ambos os lados combatentes era confusa para os iugoslavos, a Luftwaffe também deveria ter seus problemas.

Os primeiros Messerchmitts Bf-109E que equiparam a Real Força Aérea Iugoslava ou Jugoslovensko Kraljevsko Ratno Vazduhoplovsto (JKRV), chegaram no outono de 1939. As negociações para a compra desses Messerchmitts haviam se iniciado em janeiro de 1938, quando o Primeiro-Ministro Iugoslavo visitara a Alemanha com objetivo principal de adquirir modernos equipamentos militares para equipar suas Forças Armadas. O Adido Militar Iugoslavo, havia ficado muito impressionado como o desempenho demonstrado pelos Messerchmitts, e expressou sua opinião à JKRV, e quando o Primeiro-Ministro encontrou-se com o Reichsmarschall Hermann Göring para discutir a compra dos equipamentos, os Messerchmitts eram prioridade da lista.

Göring era só cordialidade para com seu convidado, mas quando chegou a hora de discutirem o fornecimento dos Messerchmitts, ele interrompeu bruscamente a conversa dizendo:

- "Não existem armas secretas na Alemanha, e todas elas poderiam ser utilizadas pelo glorioso Exército Sérvio o qual eu tanto admiro desde a última guerra, mas sinceramente meu amigo, eu não recomendo os Messerchmitts. Seus pilotos não estão familiarizados com essas novas aeronaves. Eles deverão aos poucos irem adquirindo experiência em aviões mais velozes ou sofrerão muitos acidentes principalmente nos pousos e poderão desenvolver uma rejeição aos avançados caças. Eu recomendo para vocês, do fundo de meu coração, o excelente bombardeio Dornier 17"

O Primeiro Ministro concordou com Göring, achando-o bastante sincero, mas o adido insistiu na aquisição dos Messerchmitts, e a discussão aumentou quando além dos caças, peças de artilharia antiaérea entraram em cena. Mas os minérios de ferro, de cromo e de cobre que os iugoslavos estavam oferecendo como pagamento, eram de vital importância para a industria alemã, e Göring embora relutante, finalmente concordou com as compras.

Todavia, 15 meses se passaram entre esse encontro e a assinatura do contrato, pois o Reichsluftfahrtministerium constantemente criava mais alguma dificuldade para a assinatura do mesmo. Finalmente em 5 de abril de 1939, o contrato inicial foi assinado, com a Alemanha fornecendo 50 Bf 109E e 25 motores extras DB 601A. Um contrato suplementar foi assinado onze semanas depois, para o fornecimento de uma segunda leva de 50 Bf 109E.

O 6º Regimento de Aviação de Caça, foi designado para receber os Bf 109E, e no início do outono de 1939, os primeiros três Messerchmitts, pilotados por militares iugoslavos que tinham ido à Alemanha para se familiarizarem com a aeronave, chegaram em Zemun, voando de Augsburg, sob os olhares dos generais da JKRV, do adido alemão e dos técnicos da Messerchmitts AG. A potência do motor Daimler-Benz e a maneira com que o Bf 109E pousava com nariz alto eram novidades para o pessoal da JKRV. Os dois primeiros caças pousaram sem problemas, mas o terceiro fez uma aterrissagem com trem de pouso recolhido, sob olhares perplexos dos espectadores. Os representantes da Messerchmitts AG disseram que aquilo fora feito de propósito, para demonstrar a capacidade do Bf 109E de pousar de "barriga", sem causar estragos maiores ao avião e ao piloto !!

Um Bf 109E com seu piloto, momentos depois de ter
chegado ao aeródromo de Zemum, no outono de 1939

Os aviões fornecidos à JKRV eram do tipo Bf 109E-3, e começaram a chegar em pequenos grupos, pilotados por pilotos iugoslavos. Em uma ocasião, um desses grupos, vindo de Frankfurt pousou na Romênia, por causa de uma navegação mal feita. Dos 100 aviões encomendados, apenas 73 foram entregues, e devido à falta de peças de reposição, muitos desses passaram sua breve vida operacional indisponíveis, devidos a simples itens, como por exemplo, um pneu.

A vida operacional do 6º Regimento de Aviação de Caça foi um espelho daquilo que Göring falou ao Primeiro Ministro Iugoslavo. Um ex-piloto da unidade dizia que antes da chegada dos Messerchmitts, o aeródromo de Zemun apresentava muito raramente algum Fury acidentado, e agora o que se via eram invariavelmente dois ou três Bf 109 aterrissados de barriga ou com o nariz enterrado no chão. O mesmo piloto entretanto disse que os Bf 109 eram excelentes aviões, muito melhores do que os Hurricanes que o regimento também possuía. Dizia ainda que a combinação de "slots" e de "flaps" era admirável, que os pousos e decolagens eram um pesadelo para inexperientes pilotos, e que o estreito trem de pouso e a hélice de passo variável contribuiam também para o alto número de acidentes.

Na realidade o que mais contribuiu para o problema era que não havia um avião de transição entre o Fury - simples e que perdoava todos os erros dos pilotos - e os Bf 109E. Uma tentativa foi feita, com a utilização do Bf 108B Taifun, mas os resultados não foram bons. Vários fatores, incluindo a falta de peças de reposição, limitavam o número de horas voadas nos Bf 109E. Alguns pilotos tinham apenas 50 horas de vôo nos Bf 109E, quando os alemães invadiram a Iugoslávia. Muito poucos tinham experiência em vôos noturnos ou por instrumentos e alguns outros nunca haviam utilizado máscara de oxigênio em situação de vôo normal, quanto mais de combate.

Em janeiro de 1941, todos os Bf 109E da JKRV estavam lotados no 6º Regimento de Aviação de Caça, cuja principal finalidade era defender a capital Belgrado. Com a reorganização da JKRV, esses aviões foram distribuídos também para o 2º Regimento de Aviação de Caça que possuía também Hurricanes. Nesse período, a Iugoslávia ficou sob intensa pressão diplomática da Alemanha, e em 25 de março, o Príncipe Regente Paulo, aceitou aliar-se às forças do Eixo, mas dois dias depois elementos patriotas anti-germânicos, deram um golpe de estado, depuseram o Príncipe Paulo e rejeitaram a aliança com a Alemanha e Itália. Hitler, enfurecido com esses acontecimentos, imediatamente iniciou preparativos para um ataque à Iugoslávia, o qual se deu no dia 6 de abril, com um ataque aéreo a Belgrado.

A ordem de batalha dos Bf 109E na JKRV era nessa época a seguinte: O 6º Regimento de Aviação de Caça, possuía dois Grupos de Caças, dos quais o 32º tinha dois esquadrões com um total de 22 Bf 109E, localizados em Prnjavor a uns 50 km de Belgrado e o 51º com um esquadrão de 10 Bf 109E, localizado em Zemun, principal aeródromo de Belgrado. O 2º Regimento de Aviação de Caça, cuja principal tarefa era defender os objetivos industriais, consistia no 31º Grupo de Caça com 11 Bf 109E, baseados em Susicko e no 52º Grupo de Caça com 18 Hurricanes, baseados em Knic. Haviam ainda três Bf 109E baseados em Mostar, como parte de uma unidade independente de treinamento. Ou seja, haviam apenas 46 Bf 109E disponíveis quando do início das hostilidades. Esses esquadrões possuíam ainda alguns caças IK-Z.

Os primeiros caças a se oporem aos ataques da Luftwaffe no dia 6 de abril, foi uma esquadrilha de IK-Z, que decolou de Zemun. Minutos depois, se juntou a ela alguns Bf 109E do 32º e do 51º Grupos de Caça. Os IK-Z e os Bf 109E atacaram a primeira leva de ataque, em grupos de dois ou três aviões, destruindo 10 deles, mas ao final do dia haviam perdido 2 IK-Z e 13 Bf 109E, o que representava mais de 40% de suas aeronaves.

O 2º Regimento, embora baseado a apenas 50 milhas de Belgrado, foi proibido de atacar, já que sua missão era defender as cidades industriais da Sérvia. Entretanto dois Bf 109E do 31º Grupo de Caça, ignorando as ordens, decolaram e conseguiram destruir dois Ju 87B, mas um dos aviões foi abatido, sendo essa a única perda para do 2º Regimento durante os conflitos. Um outro par de Messerschimitts também do 31º Grupo de Caça, contrariando as ordens, decolou e abateu um solitário Hs 126 que fazia um reconhecimento tático sobre o leste da Sérvia.

A munição utilizada era um grande problema para os iugoslavos, já que não haviam recebido cartuchos incendiários para as metralhadoras MG 17, e assim, todo avião da Luftwaffe abatido, era considerado precioso, pois a munição encontrada intacta, era recolhida para ser reutilizada pelos aviões da JKRV.

No dia 7 de abril, os pilotos do 6º Regimento queriam uma revanche das perdas ocorridas no dia anterior, mas descobriram então que tinham contra si não só a Luftwaffe, mas também suas próprias baterias antiaéreas e em alguns casos, seus próprios companheiros. A ordem de atirar em todos os 109 com nariz amarelo teve pouco efeito, e a antiaérea iugoslava atirava em qualquer coisa que possuía asas e estava a seu alcance. Naquela manhã um piloto do 32º Grupo de Caça abateu um Blenheim achando que era um Ju 88 !

Desenho de um Messerschmitt Bf 109E do 6º Regimento de Aviação de Caça, 1940. As superfícies superiores eram pintadas de verde-preto com azul céu nas partes inferiores. As identificações são em preto. Uma bandeira da Iugoslávia é pintada na deriva

Embora poucos aviões alemães tenham aparecido sobre Belgrado, o 6º Regimento perdeu naquele dia 12 Bf 109E, enquanto o 2º Regimento limitava suas ações aos céus do leste da Sérvia, caçando aviões de reconhecimento, sem grandes resultados. No dia seguinte as atividades aéreas foram reduzidas por causa do mau tempo, e os iugoslavos aproveitaram a calmaria para transferir alguns aviões, especialmente os Bf 109E para o aeródromo de Veliki, perto de Ruma. No dia 8, o tempo permaneceu encoberto, sem atividade aérea, mas no dia seguinte, Zágreb caiu nas mãos dos alemães, e os aviões restantes tiveram um dia de intensa atividade, engajando-se em pequenas escaramuças com os caças da Luftwaffe.

O Alto Comando Iugoslavo ficara paralisado e as comunicações eram um caos, já que esperava-se a chegada a qualquer momento dos Panzers do General Paul von Kleist. Em 10 de abril, o 2º Regimento queimou todos os seus aviões, para não permitir que os mesmos caissem em mãos alemã. Ação similar fez o 6º Regimento no dia seguinte, logo que os Panzers se aproximaram do aeródromo de Veliki. Essa foi a breve história da utilização em combate, dos Messerchmitts Bf 109E na Real Força Aérea Iugoslava.

Quando da liberação da Iugoslávia anos depois, a Luftwaffe no seu recuo rápido, deixou para trás alguns Bf 109G (Gustav), que foram rapidamente incorporados à nova Força Aérea Iugoslava, e mais tarde uns outros 60 foram doados pela Força Aérea Búlgara como reparação de guerra.