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O Heinkel He 162

A Salamandra que nunca

recebeu seu batismo de fogo

 

 

O He 162 teve sua gênese por demanda do Jägerstab (Estado Maior da Aviação de Caça) de um Volksjäger (Caça Popular), que fosse simples, barato, que pudesse ser produzido por trabalhadores não especializados e que utilizasse material não estratégico como a madeira. Ele deveria ser equipado com um único motor à jato BMW 003, pesar menos que 2 mil quilos (4.400 lb) quando completamente carregado, ter um armamento de um ou dois canhões de 30 mm, voar acima dos 750 km/h (466 mph), ser capaz de voar por 30 minutos ao nível do mar e de decolar em menos que 500 m (1.640 pés). Essa especificação foi distribuída às principais montadoras alemães no dia 8 de setembro de 1944 e cuja resposta deveria ser dada até o dia 20 daquele mês, de modo que a produção em massa se iniciasse no dia 1º de janeiro de 1945 !!!

 

         A concepção do Volksjäger foi feita por Otto Saur, líder nazista, membro do Jägerstab e protegido de Albert Speer, Ministro do Armamento, apesar das objeções do Adolf Galland que era na época o General der Jagdflieger (Comandante da Caça Diurna). Galland acreditava que o que restava da indústria aeronáutica alemã deveria concentrar seus esforços na produção de uma aeronave já desenvolvida, como o Me-262. Ele também não acreditava que fosse possível treinar tantos pilotos rapidamente de modo que pudessem comandar a quantidade de aeronaves que seriam produzidas.Famosos projetistas de aviões como Kurt Tank e Willy Messerschmitt também se opunham ao projeto, baseados em argumentos mais técnicos, principalmente no que diz respeito às especificações e ao absurdo curto espaço de tempo para projetar e preparar as maquinarias para a produção. Apesar de tudo, a data para entrega das propostas foi adiantada em seis dias, passando a ser 14 de setembro !!!

            Propostas foram recebidas da Blohm und Voss, da Arado, da Focke-Wulf, e da Heinkel. A Messerschmitt recusou-se a submeter um projeto. No dia 15 de setembro foi feita a primeira avaliação dos projetos, com o seguinte posicionamento: Focke-Wulf solicitava recursos impossíveis de serem atendidos; o projeto da Arado foi totalmente recusado; a da Heinkel parecia não atender às especificações e o da Blohm und Voss's foi avaliado como sendo o mais adequado. O projeto da Heinkel não atendia a cinco pontos: capacidade de vôo a nível do mar de apenas 20 minutos; localização não usual do motor sobre a fuselagem que demandaria problemas de manutenção; não atendia às especificações de corrida de decolagem; era relativamente complexo para ser desmontado e transportado por ferrovia e era equipado com canhão de 20 mm e não de 30 mm, como especificado. O representante da Heinkel protestou contra o modo que sua proposta estava sendo analisada e por isso uma nova data foi marcada para avaliação, dia 19 de setembro, quando então a decisão final seria tomada após reavaliação de todas as propostas.

            Nessa nova data, outras propostas foram recebidas vindo da Junkers, da Focke-Wulf, da Siebel e da Fiesler, mas o resultado foi o mesmo, ou seja, o projeto 211 da Blohm und Voss' foi novamente avaliado como sendo o melhor com o da Heinkel em segundo lugar.

            O projeto da Heinkel foi classificado em segundo lugar, mas possua uma grande vantagem sobre o da Blohm und Voss: ele já estava em andamento. A Heinkel havia estado trabalhando num simples e não sofisticado caça à jato, o Spatz (Pardal), desde o início do verão de 1944 e já havia também testado o motor BMW 003 em julho, de modo a obter dados de projeto. O esforço a ser realizado para converter o Spatz no Volksjäger não era tão pequeno assim, mas com toda certeza muito menor e mais rápido do que começar um projeto do nada, como os demais fabricantes estavam tendo que fazer.

         No dia 23 de setembro, a Heinkel apresentou um modelo em escala real do seu Volksjäger aos militares, para logo em seguida, neste mesmo dia, realizar uma reunião de especificações no Quartel General de Göring. Decidiu-se que os pilotos a serem recrutados e treinados viriam da Hitlerjugend (Juventude Hitlerista). Os garotos seriam ensinados a voar o Volksjäger, se já não soubessem, e então terminariam seu treinamento voando missões operacionais !!! Otto Saur decidiu então pelo Projekt 1073 da Heinkel em vez do Projekt 211 da Blohm und Voss, e ordenou a construção do primeiro protótipo, a partir do dia seguinte, por sua total responsabilidade.

O Projekt 211

            Na realidade, a decisão foi tomada baseada nos relatórios de dois especialistas em aerodinâmica, que quando consultados sobre o P. 211, informaram que o arranjo escolhido pela  Blohm und Voss poderia causar problemas na ingestão de ar. A Heinkel recebeu ordens de fabricar mil aeronaves por mês. A aeronave foi inicialmente desisgnada de He 500, mas logo mudou para He 162, número previamente utilizado pela Messerschmitt durante a competição do Schnellbomber (Bombardeiro Veloz), que acabou sendo vencida pelo Ju 88. O projeto tinha o nome de código Salamander, e por isso é freqüentemente confundido com o nome da aeronave.

         O projeto final ficou completo em 29 de outubro, um dia antes do previsto e o primeiro protótipo já se encontrava num estágio avançado de construção. O He 162 foi único na história da aviação, pois o desenvolvimento, o protótipo de pré-produção e o produto final ocorreram quase que simultaneamente e prosseguiram em paralelo.

         Os arranjos de produção eram bastante complexos e é um excelente exemplo do esforço alemão para minimizar a vulnerabilidade de sua indústria aeronáutica. Infelizmente, para os alemães, os planos de descentralização da fabricação dos componentes caiu em mãos aliadas, e a 8ª Força Aérea executou um plano para destruir todos os meios de transportes alemães, da ferrovia às barcaças fluviais.

         A montagem final da aeronave seria feita em três fábricas: Heinkel-Nord em Rostock-Marienhe, Junkers em Bernburg e Mittelwerke em Nordhausen, com as duas primeiras produzindo mil aeronaves por mês e a última duas mil aeronaves por mês. Todos os componentes de madeira seriam produzidos em duas localidades especialmente montadas para tal, uma em Erfurt e outra em Stuttgart. As fuselagens metálicas seriam produzidas pela Heikel em Barth in Pomerania, Pütnitz in Mecklenburg, Stassfurt in Saxony and at Berlin-Oranienburg e pela Junker em Schönbeck, Ascherleben, Leopoldshall, Halberstadt e Bernburg. Outros locais também produziriam as fuselagens, como por exemplo, as minas de sal em Eglen e Tarthun. A fábrica de Heinkel em Wien-Schwechat seria a responsável pela fabricação do protótipo, e mais tarde, montaria numa mina de cimento próximo a Viena uma nova linha de produção. Outra mina de sal próximo a Urseurg, receberia as peças dos motores provenientes das fábricas em Berlin-Spandau and Basdorf-Zülsdorf e produziria o BMW 003. Os planos previam que os primeiros mil aviões ficariam prontos até o final de abril de 1945, e já no mês seguinte seria alcançada a taxa de produção de duas mil aeronaves produzidas por mês. O He 162 foi uma das aeronaves mais diferentes jamais produzidas, com o motor montado sobre a fuselagem e com as pontas das asas viradas para baixo. A equipe de projeto da Heinkel havia resolvido posicionar o motor neste local tão estranho, de modo a minimizar as dificuldades que surgiriam para posicionamento da tomada e da exaustão de ar, cuja aerodinâmica era tão pouco entendida naquela época.

         Para a natureza de um projeto de Volksjäger de uma aeronave descartável, o He 162 possuía um projeto bastante conservador com capacidade de susbtituição de peças, mas incluía também uma assento ejetável, visto que os pilotos eram considerados mais valiosos e importantes do que a própria aeronave. Era vital que as possibilidades de ejeção tivessem que ser diferente do usual, tendo em vista a localização da tomada de ar logo acima e atrás do cockpit.

         O primeiro protótipo, o He 162 V1, realizou seu primeiro vôo no dia 6 de dezembro, apenas 90 dias após a solicitação do projeto. Um recorde inigualável.  O vôo ocorreu sem problemas, a menos da porta de madeira do compartimento do trem de pouso ter sido arrancada durante a fase de vôo em velocidade. Quatro dias depois, um novo vôo terminou em tragédia, quando o bordo de ataque da asa esquerda se soltou fazendo com que a aeronave se acidentasse em frente de uma multidão de convidados especiais. O piloto não sobreviveu. As investigações chegaram a conclusão que a causa foi a cola utilizada na madeira das asas, e por isso um novo produto teve que ser desenvolvido. A aeronave Ta 154 Moskito teve seu projeto cancelado pelo mesmo problema.

O Ta 154

         O segundo protótipo voou no dia 22 de dezembro, logo seguido por outros. A aeronave seria inicialmente equipada com dois canhões MK 108 de 30 mm, mas a resistência estrutural provou ser muito leve para suportar tal armamento. Vôos de teste revelaram problemas de estabilidade lateral, trepidações longitudinais em velocidade e severa instabilidade durante curvas de alto G para a esquerda. Os teste também provaram a necessidade de rolagem para decolagem e pouso maior do que o previsto. As derivas e as asas foram aumentadas, e as pontas destas dobadas para baixo, nos protótipos V3 e V4, num bem sucedido esforço para resolver a maioria destes problemas. Se o tempo tivesse permitido, a asa teria sido completamente redesenhada, em vez de ter-se adotado a solução de dobrar as pontas.

         Poucos foram os He 162A-1 construídos com o canhão de 30 mm, antes que a produção passasse a fabricar o A-2, equipado com dois canhões MG 151 de 20 mm. O A-2 também incorporou inúmeras modificações aerodinâmicas que aumentaram a estabilidade, mas sem acabar com os movimentos abruptos dos controles. O 162 possuía um elevada velocidade de rolagem no eixo, mas tinha-se que tomar muito cuidado quando aplicava-se todo o pedal, já que isto induzia a trepidações. Recomendava-se aplicar, no máximo, ¾ do pedal, para uma curva suave, quando, por exemplo, na hora de se atirar numa aeronave inimiga. Os experientes pilotos de aeronaves à pistão tinham que esquecer o hábito de se jogarem nos céus se desejassem se tornar habilidoso pilotos do He 162, que exigia uma pilotagem suave, com poucos movimentos bruscos. Em resumo, o He 162 era uma bela aeronave para os pilotos experientes, mas seria uma armadilha mortal para a maioria dos jovens pilotos da Hitlerjugend que haviam acabado de aprender a voar num planador.

         A Luftwaffe formou em janeiro de 1945, uma unidade denominada Erprobungskommando 162 (Unidade de Avaliação do 162), sob o comando de Heinz Bär, o oitavo ás alemão de todos os tempos com 220 vitórias, para testar e avaliar a aeronave, operando a partir do Centro de Testes de Rechlin. Em abril, o Erprobungskommando 162 juntou-se ao JV 44, bando desmantelado de pilotos de caça de Adolf Galland, com seus Me 262 na base aérea próxima a München, mas tiveram poucas oportunidades de entrar em combate, já que o He 162 ainda não estava liberado operacionalmente.

         No dia 8 de fevereiro o I./JG 1 recebeu ordens de entregar seus Fw 190 ao II./JG 1 e dirigir-se para Parchim, de modo a iniciar sua conversão para o He 162, mas o primeiro exemplar do caça só chegou no final do mês. Mais tarde, juntou-se à unidade o Geschwaderstab, e juntos lá permaneceram até serem expulsos pelo 8º Exército Britânico no dia 8 de abril. Moveram-se então, de base em base pelo norte da Alemanha, evitando serem rendidos pelas tropas aliadas que avançavam, terminando a guerra em Leck na Schleswig. O II./JG 1 abandonou seus Fw 190 no dia 8 de abril, quando foram transferidos para Rostock, para iniciarem a conversão para o He 162, mas acabaram juntando-se ao primeiro Gruppe em Lecj no dia 2 de maio, para fugirem do avanço soviético. A conversão do III./JG 1 fora planejada para começar em meados de abril, mas foi cancelada no dia 24 daquele mês, com o pessoal distribuído entre outras unidades. No dia 3 de maio, a JG 1 foi reorganizada em dois Gruppen. O I operando em Einsatz e o II em Sammel, com um total de 50 pilotos e aeronaves em seis Staffeln.

         O I./JG 1 foi declarado pronto para combate no dia 23 de abril, após já ter abatido uma aeronave britânica no dia 19. O vitorioso foi o Feldwebel Günther Kirchner, pois o piloto aliado foi capturado, após ter saltado de para-quedas, e ter confirmado que fora abatido por um jato. Infelizmente Kirchner foi, dias depois, abatido por uma aeronave britânica. Pelo menos duas outras vitórias foram obtidas pelo He 162 antes do final da guerra, embora apenas um Tempest V admita-se oficialmente ter sido abatido por um desses caças. Pelo menos um e possivelmente três He 162 foram perdidos por ação inimiga.

         O motor BMW funcionava melhor do que os que equipavam o Me 262, sendo menos sensível ao movimento das manetes, mas mesmo assim era muito comum apagarem em vôo. Essa característica permitia que os pilotos do He 162 voassem a aeronave em seu limite, diferentemente do Me 262, cujos motores eram limitados.

         O grande defeito do He 162 era a capacidade de duração de vôo, limitada a apenas 30 minutos ao nível do mar. Isso forçava o piloto a ter uma atenção permanente ao ponteiro de combustível, a evitar mal tempo e a ter uma preocupação quando do retorno da missão, para o caso de existirem aeronaves inimigas sobre o aeródromo, pois não poderiam engajar combate. Na verdade, muitas perdas operacionais foram causadas por simples falta de combustível.

         Um outro problema encontrado no He 162 era a falta de visibilidade por parte do piloto para cima e para trás, e também a incapacidade da cauda de suportar esforço máximo gerado pelo leme. O problema da visibilidade seria minimizado se o jato estivesse a baixa velocidade e pudesse ser escoltado por aeronaves à pistão, cobrindo essa região vulnerável. Mas o problema da cauda, deixava os pilotos bastante preocupados e sem confiança na aeronave, e assim eles evitavam realizar manobras mais bruscas com medo de sua aeronave se quebrar em pleno ar.

O Lockheed P-80

         Apesar de tudo isso, o He 162 teria sido um eficiente caça nas mãos de pilotos treinados, se a guerra continuasse, sendo infinitamente superior aos melhores caças aliados, incluindo possivelmente o P-80A.