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A GUERRA AÉREA NA CORÉIA

PARTE I

A divisão da Coréia em dois países distintos, a do Norte e a do Sul, foi resultado direto da tardia e oportunista declaração de guerra russa ao Japão, no dia 8 de agosto de 1945, quando este já estava prestes a se render. Os Estados Unidos fez a proposta de dividir a responsabilidade de aceitar a rendição das tropas japonesas na Coréia, com o paralelo 38 sendo utilizado como um conveniente marco divisório, que anos antes já havia sido utilizado como fronteira proposta, quando a Rússia e o Japão discutiam a divisão daquele pequeno país. Em 1946, o General Douglas MacArthur, então Comandante das Forças Americanas do Oriente (US Far East Command), apresenta e consegue aprovação, por parte dos Chefes dos Estados-Maiores Unificado, de seu plano para criação de uma Força Policial da Coréia, e em 1947 uma resolução da ONU (Organização da Nações Unidas), propõe a retirada de todas as tropas estrangeiras da Coréia, seguida de uma eleição geral.

A Rússia apoiou a eleição de Kim Il Sung como líder e presidente da nova República Popular da Coréia do Norte, enquanto que os Estados Unidos colocavam Syngman Rhee como presidente da República da Coréia (Coréia do Sul). A República Democrática da Coréia foi proclamada independente em 1 de maio de 1948, e a República da Coréia em 15 de agosto do mesmo ano. As tropas americanas, saíram da Coréia do Sul no final de junho de 1949.

No final do ano de 1945, os Estados Unidos estavam cansados da guerra e prontos para usufruir de paz e de prosperidade. Os americanos queriam trocar a produção de produtos bélicos por bens de consumo que lhes trouxesse conforto e bem estar. A última coisa que passava pela cabeça dos americanos seria o engajamento em uma nova guerra. Os políticos, entretanto, haviam reduzido os investimentos na área militar a um nível baixo e perigoso. O envolvimento americano nas coisas da Coréia era muito limitado, e a nova nação não era prioridade da diplomacia americana. O próprio Secretário de Estado Dean Achenson, em um de seus discursos, enumerou uma lista de países pelos quais os americanos dariam seu sangue em defesa de intromissão comunista, e a Coréia não era um desses.

Para a Coréia do Norte, cujos líderes viam a unificação dos dois países pelo uso da força, como uma missão sagrada, essas declarações do governo americano, eram como uma luz verde para a conquista do sul e reunificação da Coréia. Rapidamente Kim obteve a aprovação de Moscou para seus planos, de um ataque militar de surpresa com tanques T-34 suportados pela força aérea.

Documentos norte-coreanos capturados após a guerra, revelaram que "com dois meses de guerra, Pusan deveria ter sido tomada e a Coréia do Sul não mais existiria". Essa previsão, era baseada inclusive na intervenção dos Estados Unidos, para ajudar a Coréia do Sul. Sem tal intervenção, a guerra talvez durasse, no máximo 10 dias. Mas com certeza, sem a intervenção do poder aéreo americano, os planos norte-coreanos teriam se transformado em realidade, de uma maneira ou de outra. As atenções americanas estavam voltadas para a ameaça da China em invadir a ilha de Formosa, que era considerada pelo General MacArthur como um "porta-aviões inafundável"

No dia 25 de junho de 1950, após massiva e secreta mobilização militar, forças comunistas da Coréia do Norte cruzavam o paralelo 38 e davam início a invasão da Coréia do Sul. O exército sul-coreano, equipado com armas leves bateu em uma desordenada retirada, e tropas americanas enviadas rapidamente do Japão, mostraram-se pouco efetivas. As tropas norte-coreanas, apoiadas por tanques T-34 de fabricação russa e por caças-bombardeiros, rapidamente penetraram nas defesas sul-coreanas. Naquele mesmo dia, quatro Yak-9, atacaram o aeroporto de Kimpo em Seul, ficando aparente para o Comando Americano do Oriente, que Seul estava em iminente perigo de cair em mãos comunistas. Ao mesmo tempo, navios da 7ª Frota começaram a patrulhar o Estreito de Formosa, com objetivo de previnir que os chineses começassem uma outra guerra. As tropas americanas, localizadas no Japão não estavam preparadas, visto que realizavam apenas atividades de força de ocupação. A 5ª Força Aérea da USAF, estava um pouco melhor preparada, mas com os cortes orçamentários, não realizava há muito tempo treinamento de bombardeio, tiro aéreo e de apoio aéreo aproximado, nem possuía capacidade operacional para atividades com qualquer tempo.

O ponto fraco da Coréia do Norte, era exatamente a aviação, embora seu único regimento de aviação tivesse sofrido uma expansão em tamanho, e fosse adequado para combater a aviação sul-coreana. A Força Aérea Norte Coreana possuía um efetivo de 1 700 homens, com 76 pilotos, muitos dos quais haviam lutado ao lado dos japoneses durante a 2a Guerra Mundial, e tinham recebido treinamento na União Soviética. Tão logo a Força Aérea Norte Coreana começou sua expansão, a União Soviética forneceu aeronaves, ainda que a maioria delas fosse sobra da guerra, sem incluir aeronaves à jato. Eram basicamente caças Yak-7 e Yak-9, equivalentes ao P-51 Mustang, com menor raio de ação, mas mais manobráveis e com armamento mais pesado, além de treinadores Po-2 e Yak-18 e dos aviões de ataque Il-10 Shturmoik. No total, a Coréia do Norte possuía 178 aeronaves (30 treinadores, 70 Il-10 e o restante eram caças, distribuídos entre os dois tipos). Alguns relatórios de combate indicam a presença de outros tipos de aeronaves, como o La-7 Lavochkin.

Com o avanço das tropas norte-coreanas, se fazia necessário, evacuar os cidadãos americanos e os membros do governo sul-coreano, de Seul, mas para tal era necessário montar uma ponte aérea com cobertura de caças, e essa tarefa foi designada para a USAF (United States Air Force), sendo então a primeira colaboração americana para o esforço de guerra da ONU contra os invasores.

Entretanto, havia um problema logístico, pois a maioria das aeronaves americanas estavam em bases aéreas no Japão (o 8o Grupo de Caças-Bombardeiros em Itazuke, o 35o Grupo de Caça em Yokota, o 49o Grupo de Caça Bombardeiro em Misawa e o 51o Grupo de Caça em Naha – Okinawa, os três primeiros equipados do F-80 e o último com P-51 Mustang), e não possuíam alcance suficiente para cobrir as aeronaves de transporte


Twins Mustangs sobre a Coréia do Norte.
As aeronaves pertencem ao 4ºFighter Squadron

A solução encontrada seria a utilização de 40 F-82G Twin Mustang pertencentes ao 339o Esquadrão de Yokota, ao 4o Esquadrão de Caça de Naha a ao 68o Esquadrão de Caça de Itazuke, que possuíam alcance operacional suficiente, podendo permanecer junto com os transportes enquanto durasse a missão. O F-82 era basicamente um par de Mustangs, montados juntos por uma pequena seção central, com as hélices girando em sentido contrário de modo a neutralizar o torque, e com um poderoso radar montado sob a seção central. O operador do radar sentava-se na fuselagem esquerda e o piloto na direita. Eles forneceriam proteção aos C-54 e C-47 que realizariam a ponte aérea. A primeira missão dos F-82, e a primeira missão da guerra, ocorreu na noite da invasão, quando uma aeronave do 68o Esquadrão, tripulada de 1o Tenente George D. Deans e pelo operador de radar 2o Tenente Marv Olsen, realizou um reconhecimento ao norte de Seul, localizando uma coluna de 58 tanques a 10 milhas ao sul do paralelo 38.

No dia seguinte, ocorreu o primeiro encontro aéreo entre a aviação americana e norte-coreana, quando às 13:30 horas, um Yak-9, surgiu das nuvens e atacou dois F-82 que voavam por sobre o porto de Inchon, próximo a Seul. Os pilotos americanos, tomados de surpresa, e sem saber se deveriam reagir ao ataque, realizaram ações evasivas e o Yak rapidamente desapareceu em direção norte. No dia 27 de junho de 1950, os combates realmente começaram a esquentar, e os caças americanos derrubaram 7 aeronaves inimigas sem perdas, sendo que a primeira aeronave norte-coreana derrubada é creditada ao Major James Little comandante do 339o Esquadrão. Naquele mesmo dia, é creditada ao 1o Tenente Robert H. Dewald, pilotando um jato F-80 pertencente ao 35o Grupo de Caça, a derrubada de um Il-10, quando realizava missão por sobre Suwon, tornando-se o primeiro piloto voando um jato a derrubar uma aeronave inimiga na guerra.

As atividades aéreas aumentaram nos dias seguintes, quando o governo americano autorizou o General Douglas MacArthur, já nomeado Comandante em Chefe das Tropas da ONU (CINCUNC) a empregar o poder aéreo contra alvos militares por toda a península coreana, inclusive além do paralelo 38, mas ainda restringindo as operações até o Vale do Rio Yalu. Ao mesmo tempo, as Nações Unidas, mesmo com o boicote soviético, aprovavam a resolução que apoiava a defesa da soberania da Coréia do Sul. Dezesseis nações se comprometeram a enviar tropas terrestre, enquanto que a Austrália, a Inglaterra, o Canada, a Grécia e a África do Sul enviariam também pilotos e até mesmo aeronaves. As primeiras aeronaves não americanas a chegarem para o combate vieram da Austrália, e pertenciam ao Esquadrão No 77 equipado com P-51, logo participando das operações e sofrendo sua primeira baixa no dia 7 de julho de 1950. Os norte coreanos foram pegos de surpresa, quando B-29 e F-80 americanos realizaram missões ao norte do paralelo 38, destruindo muitas aeronaves no solo. Em quatro semanas de guerra, praticamente toda a Força Aérea Norte Coreana foi destruída no solo, com exceção de alguns Yak-9 e Il-10 que operavam no Vale do Yalu.

No dia 29 de junho, o General MacArthur resolveu voar até Seul, para ver de perto a situação, e para realizar a escolta de seu C-54, o Bataan, Mustangs foram empregados, enquanto que os F-80 faziam uma varredura a altitudes mais altas. Quatro P-51 realizaram a missão, derrubando quatro Il-10 que tentaram atacar o C-54, logo após o pouso deste no aeródromo de Suwon, tudo assistido pelo convidado VIP. Os Il-10 embora possuíssem muita manobrabilidade e uma ótima blindagem, não eram páreo para os Mustangs.

Os Yarks-9 sobreviventes, continuaram a mostrar muita agressividade e perícia, mesmo quando combatendo os F-80, fazendo correr boatos que eram pilotados por soviéticos, mas isso ainda não era verdade. Eles eram apenas pilotos norte-coreanos, com experiência de combate da 2a Guerra Mundial.


Destroços de um Ilyushin Il-10 Norte Coreano

No início do mês de julho de 1950, chegam às águas coreanas dois porta aviões o USS Valey Forge (CVA-45) e o HMS Triunph, que partiram de Okinawa, e em seguida o USS Philippine (CVA-47). O HMS Triumph entrou para a história, ao lançar o primeiro ataque de aeronaves não americanas na guerra, utilizando 9 Supermarine Seafire Mk. 47, equipados com motor Griffon do Esquadrão No 800 e 12 Fairey Fireflies do Esquadrão No 827, contra o aeródromo de Haeju. Ao mesmo tempo, aeronaves A4D Skyraiders e F4U Corsairs do CVG-5, pertencentes ao USS Valey Forge atacavam a capital da Coréia do Norte, Pyongyang, tornando-se assim as primeira aeronaves da US Navy a participarem da guerra. Essa leva foi seguida de oito F9F-2 Panthers do VF-51, que inicialmente deveriam ter chegado antes, de modo a atrair para sí qualquer iniciativa da Força Aéra da Coréia em interceptar a força principal. Vários Yaks decolaram, e o céu de Pyongyang tornou-se palco de uma enorme batalha aérea. O Tenente Leonard Plog abateu um Yak, tornando-se o primeiro piloto da US Navy a abater uma aeronave na guerra. Os Panthers destruíram ainda 3 aeronaves no solo, além de infringirem enormes danos nas instalações do aeródromo.


Um F4U-4B Corsair do Esquadrão VMF-241 Black Sheep dos
Fuzileiros Navais, preparando-se para decolar do
porta-aviões USS Sicily.

O ataque a Pyongyang foi um avanço estratégico, pois levou a guerra diretamente aos norte-coreanos, mas em terra as coisas iam de mau a pior para as forças da ONU. O exército norte-coreano continuava seu avanço, e em meados de junho, já havia penetrado 120 km. A 24a Divisão do Exército Americano, embora valente no combate, foi forçada a recuar, formando o denominado Perímetro de Pusan. A situação era tão séria a USAF foi colocada em alerta total, para o caso de ser necessário uma evacuação urgente. Felizmente, a Força Aérea Norte Coreana não era vista tão ao sul, em Pusan, permitindo que as aeronaves da ONU realizassem suas missões sem serem incomodadas, mas as aeronaves de observação do Exército e dos Fuzileiros Navais, Ryan L-17 e Piper L-4, eram os alvos prediletos dos Yaks. Em certa ocasião, de modo muito inusitado, um L-4, conseguiu, voando rente ao solo, e em região montanhosa, fazer com que um desses Yaks se chocasse com o solo, ao realizar uma manobra muito arriscada.


Um Fairey Firefly Mk V do Esquadrão
Nº 827 da Fleet Air Arm, que operava a
partir de Suwon.

Os combates aéreos continuavam, com os F-80 Shooting Star derrubando mais aeronaves norte-coreanas. Ele era o caça padrão do US Far East Command, tendo entrado em operação nos últimos dias da 2a Guerra Mundial e estabelecido alguns recordes de velocidade, altitude e de alcance em vôo. No início da Guerra da Coréia, quando o inimigo utilizava aeronaves à hélice, o F-80 era soberano, mas cinco meses mais tarde, quando surgiu nos céus coreanos o Mig-15, o F-80 foi totalmente sobrepujado, embora continuasse a ser utilizado com sucesso em ataques ao solo e tenha tido o privilégio de ter derrubado o primeiro Mig-15, tornando-se assim o pioneiro dos caças a era a jato a derrubar outro, pilotado pelo Tenente Russell Brown, em novembro de 1950.

No dia 20 de julho, a cidade de Taejon caia em mãos comunistas, deixando apenas o Rio Naktong entre as forças invasoras e a capital Seul. Enquanto as coisas iam mal em terra, o Capitão Robert L. Lee e o 2o Tenente David. H. Goodnough do 35o Grupo de Caça derrubavam dois Yak-9, que seriam as últimas vitórias aéreas por um período de 103 dias, que iria até 1 de novembro. Embora tivesse ficado decidido que o quantitativo de F-80 e F-82 era suficiente para o teatro de operações, sentiu-se necessidade urgente da presença de Mustangs, para serem utilizados como aeronaves de apoio, uma vez que os F-80, embora fossem uma excelente plataforma de ataque, possuíam pouca autonomia e eram rápidos demais para serem utilizados com precisão nos ataques, visto que as tropas amigas e inimigas estavam muito próximas uma da outra. O Mustang, estava longe de ser a aeronave ideal, pois possuía motor refrigerado a água e seu radiador ficava localizado na parte inferior da fuselagem, muito exposto portanto ao tiro de armas antiaéreas e até mesmo de armas pessoais. Pensou-se inclusive em utilizar o P-47, muito mais adequado para esse tipo de missão, mas essa aeronave já não encontrava-se em uso pela USAF, e por outro lado, o Mustang ainda era utilizado, especialmente pela Air National Guard. Imediatamente foram preparadas 145 aeronaves, que embarcadas no porta aviões USS Boxer (CVA-21), juntamente com 70 pilotos, chegavam à Coréia no tempo recorde de 8 dias. A US Navy e o US Marine Corps prepararam também aeronaves para serem enviadas à Coréia, e nesses casos a escolhida foi o F4U Corsair. Diversas unidades foram enviadas ao teatro de operações como a VMF-214, a VMF-323 e a VMF(N)-513, esta última equipada com Corsairs para caça noturna. Chegaram também unidades equipadas com Panthers (VF-111) e com Skyraiders (VA-115).


Um P-51D do 36th Fighter Bomber Squadron

O meses seguintes, foram muito calmos, no que diz respeito aos combates aéreos, mas as B-29 e B-26 simplesmente arrasaram os aeródromos e as colunas de tropas norte-coreanas, produzindo uma crise entre os comunistas. Entre essas operações, inclui-se um erro de ataque, quando dois P-51 metralharam a cidade de Antung na China, no dia 22 de agosto e um bombardeamento de B-29 à mesma cidade no dia 22 de setembro. Pior do que isso, foi o metralhamento por parte de dois F-80 a um aeródromo russo perto de Vladivostok, no dia 8 de outubro (os pilotos foram à Corte Marcial, mas declarados inocentes, mas o comandante da unidade perdeu seu cargo). Mesmo assim, as forças terrestres norte-coreanas continuavam seu avanço em direção ao sul, com a Península de Pusan, último reduto de defesa, permanentemente sob ameaça, com a ONU tendo que negociar muito para tentar salvar a Coréia do Sul. A última tentativa norte-coreana de quebrar o perímetro defensivo de Pusan, ocorreu no dia 31 de agosto de 1950, quando tropas comunistas tocando suas cornetas fizeram um desesperado ataque, mas a falta de apoio aéreo e as atividades da 5ª Força Aérea da USAF juntamente como os aviões do US Marine Corps e da RAAF (Royal Australian Air Force), além é claro das unidades do US Army e do Exército Sul-Coreano, impediram o desastre.

No dia 15 de setembro de 1950 realizou-se a Operação Chromite, visionária e arriscada operação planejada pelo General Douglas MacArthur, com desembarque de tropas do Exército e dos Fuzileiros Navais no porto de Inchon. A 1ª Divisão dos Fuzileiros desembarcou ao alvorecer, enfrentando um mar revolto, com altas ondas, e ao final daquele dia o porto já estava sob controle americano, permitindo então o desembarque de equipamento pesado do X Corpo de Exército. Kimpo caia em mãos americanas dois dias depois, e Seul no dia 18 de setembro. Simultaneamente, o 8º Exército Americano, quebrava o cerco de Pusan, e o Exército Norte-Coreano batia em retirada, cruzando o paralelo 38. Em 27 de setembro, as tropas do X Corpo de Exército juntaram-se as do 8º Exército. A situação para os norte-coreanos era pior, visto não possuírem qualquer apoio aéreo, com os F-80 dominando os ares e realizando inúmeras missões de apoio às tropas terrestres. O poder aéreo das tropas da ONU aumentou, quando chegou a Kimpo, o esquadrão VMF(N)-52 equipado com caças-bombardeios noturnos Gruman F7F Tigercat e os esquadrões VMF-212 e VMF-312 com Corsairs, todos dos Fuzileiros Navais

Mais uma vez, nova deliberação da ONU, permitiu que as tropas americanas avançassem além do paralelo 38. Como as tropas norte-coreanas bateram em total retirada, o aeródromo de Wonsan foi retomado pelas tropas da ONU em 13 de outubro, tornando-se a base das aeronaves dos Fuzileiros Navais. A capital Pyongyang caía uma semana depois, enquanto que a maior parte das tropas da ONU chegava até o Rio Yalu. Tudo parecia indicar que a guerra terminaria antes do Natal daquele ano. O domínio do ar pela aviação da ONU era total, e ela destruiu 13 aeronaves norte-coreanas no solo. O porta-aviões USS Leyte (CVA-32) substituía o USS Valley Forge e o HMS Theseus o HMS Triumph, trazendo novas unidades e principalmente novos equipamentos, como os Hawker Sea Fury do Esquadrão Nº 807. A susbstituição dos Seafires pelos Sea Fury era uma considerável melhora, visto tratar-se de uma aeronave mais rápida, mais resistente e mais ágil.

As unidades de aviação acompanharam o avanço das tropas terrestres, passando a operar em bases bem no interior da Coréia do Norte. Embora a aviação norte-coreana estivesse praticamente extinta, tendo oportunidade, eles lançavam-se com tudo o que tinham. Por isso em novembro aconteceram vários combates, principalmente entre os Mustangs do 18º Grupo, que operavam da capital Pyongyang e os Yaks. Nesse período da guerra, 8 aeronaves norte-coreanas foram abatidas, todas Yak-9


Destroços de um Yak-9

A guerra teria provavelmente terminado antes do Natal, se a ONU tivesse simplesmente se limitado a restabelecer a antiga fronteira entre as Coréias. Por outro lado, o líder sul-coreano Syngman Rhee, dizia que, caso a guerra terminasse naquele instante, só traria uma paz temporária, e ele queria ver a Coréia unificada de novo. O presidente dos Estados Unidos Harry Truman, concordou com os argumentos do líder sul-coreano, de que as tropas comunistas teriam que ser totalmente destruídas, e ordenou que as forças americanas avançassem .

No dia 3 de outubro, o Premier chines Chou En Lai, avisou à ONU, que caso suas tropas ultrapassassem o paralelo 38, a China interviria na guerra, mas esse aviso não foi levado em conta. No dia 13 de outubro, Kin Il Sung foi forçado a deslocar seu governo para dentro do território chinês, e as forças da ONU continuaram a avançar. Quatro grupos de B-29 se juntaram ao já operando a partir da Ilha de Guam, e atacaram de forma impiedosa as instalações norte-coreanas, praticamente destruindo todas as fábricas e indústrias daquele país. Estimava-se que 39 mil soldados norte-coreanos já haviam sido mortos na guerra. No dia 29 de novembro, 50 divisões chinesas penetram na Coréia do Norte, forçando uma nova retirada das tropas da ONU. O General MacArthur havia subestimado a intervenção chinesa e já preparava a festa da vitória para o Natal ou o Ano Novo.

Os pilotos da ONU rapidamente descobriram que seu domínio do ara estava seriamente ameaçado, quando da aparição do Mig-15 por sobre o Vale do Yalu. A chegada desse caça fez com que as táticas empregadas pelas unidades aéreas da ONU tivessem que ser totalmente reformuladas. Essas aeronaves eram pilotadas inicialmente por chineses, lideradas por instrutores russos, e seus vôos eram restritos a região entre Wonsan e Pyongyang, área mais conhecida como "Mig Alley". Os pilotos russos voavam utilizando uniformes chineses, e eram proibidos de se comunicar em russo, quando no ar. Os que morreram, foram enterrados secretamente em um cemitério em Port Arthur, junto aos que morreram na guerra Russo-Japonesa de 1904. Esse segredo continuou até o verão de 1951, quando então pilotos chineses e norte-coreanos passaram a voar sem a presença dos instrutores soviéticos.

Embora a chegada do Mig-15 tenha causado consternação e excitamento, os caças Yak e o pesado fogo antiaéreo continuaram a causar muitos problemas para os pilotos aliados. O primeiro combate contra os Mig-15 ocorreu no final de outubro, quando os F-80 do 25º Esquadrão encontraram alguns Mig, enquanto realizavam ataques contra objetivos terrestres perto do Rio Yalu. Talvez nesse dia já pudesse ter sido derrubado um desses caças russos, mas na hora de atirar o Tenente Coronel Clure Smith, comandante do esquadrão, descobriu que suas metralhadoras haviam congelado, e o que conseguiu foi apenas um filme, mostrando o incidente. Esse filme foi levado para o Quartel General da ONU, e confirmava a presença desse tipo de aeronave operando na Coréia, ao mesmo tempo que os analistas aeronáuticos notaram que os Migs voavam carregando tanques de combustível subalares.

Demorou algum tempo até que nova oportunidade para um combate jato versus jato voltasse a ocorrer. No dia 8 de novembro, uma esquadrilha de F-80 do 16º Esquadrão de Interceptadores, realizava uma missão de caça-bombardeiro contra baterias anti-aéreas ao largo do aeródromo de Sinuiju, juntamente com algumas B-29. Essas estavam escoltadas por F-80 do 51º Grupo. Participavam também da missão outros F-80 e P-51. Após o ataque, os F-80 estavam tomando rumo sul, subindo lentamente, quando o comandante da esquadrilha, Tenente Coronel Evans Stephens vislumbrou oito Migs ao norte do Rio Yalu, que pareciam estar brincando, pois realizavam acrobacias diversas. O coronel comandou um ataque, e o 1º tenente Russell Brown, logo derrubou um dos Migs, tornando-se assim o primeiro piloto de jato a derrubar outro em combate. No ardor do combate, o Coronel Evans, esqueceu de ordenar que os "tip tanks" fossem ejetados, e quando regressaram à base observou que as asas do F-80 tinham ficados um pouco torcidas, devido ao esforço causado pela presença daquele tanque na ponta das asas. No dia 10 de novembro era vez de um Panther do VF-111, embarcado do USS Valley Forge derrubar um Mig-15. O piloto era o Tenente Willian Thomas Amen.


Um F-80 do 36th Fighter Bomber Squadron

Os Migs também não deixavam por menos, derrubando algumas B-29, já que essa era sua missão principal, quando levados para a Coréia. Os pilotos dos Migs eram muito agressivos, além de bastante motivados ideológicamente, já que estavam defendendo a socialista Coréia do Norte contra a agressão dos capitalistas do oeste liderados pela ONU. Os pilotos eram levados a ver os efeitos devastadores dos ataques realizados pelos bombardeiros da ONU, antes de começarem suas missões operacionais. O medo de cair prisioneiro era outro fator de motivação, visto que os pilotos russos sabiam que, caso fossem feitos prisioneiros, perderiam tudo e suas famílias não estariam seguras. Além de tudo, o Mig era superior a todas as aeronaves da USAF existentes no teatro de operações, inclusive em alguns aspectos com relação ao F-86 Sabre. O combate contra os caças era evitado, a menos que a escolta não permitisse que eles chegassem aos bombardeiros ou quando pegos de surpresa. O Mig possuía vantagem da razão de subida, enquanto que o Sabre era mais manobrável, especialmente a baixa altura. Essas vantagens eram pouco utilizadas, visto que o combate era decidido normalmente no primeiro ataque. Após o primeiro passe o Mig-15 subia para as alturas, enquanto que o Sabre corria para o solo, cada um tentando, caso necessário um segundo encontro, lutar na sua arena favorável. O Mig possuía mais poder de fogo que o Sabre, já que era equipado com dois canhões NR-23 e um canhão N-37, embora essas armas tivessem uma cadência de tiro lenta, dificultando o enquadramento de um alvo em manobras evasivas, mas bastava um simples acerto para que derrubasse o F-86. Por outro lado, os Migs recebiam dezenas ou centenas de tiros das .50 dos Sabres e nada sofriam. O piloto era bem protegido, os tanques eram auto-selantes e o para-brisa era blindado. O ponto fraco talvez fosse o visor de tiro, que muitas vezes, após manobras com alto g, deixavam de funcionar.

Embora mais bem treinados que a maioria dos pilotos norte-coreanos, os russos estavam abaixo do padrão americano. Após 40 missões, retornavam à Rússia, e recebiam a Ordem de Lenin se derrubassem três aeronaves inimigas. Com o passar do tempo, os pilotos passaram a ser mais bem selecionados, preparados e treinados, tornando-se oponentes formidáveis. Além dos Mig-15, outra aeronave russa apareceu nos céus da Coréia: o Lavochkin La-15. Essa aeronave fora planejada para ser o caça padrão de superioridade aérea da União Soviética. Possuía grande velocidade, agilidade e armamento (três canhões de 23 mm). Uma unidade com 22 aviões foi enviada para a China, e felizmente para os pilotos de caça da ONU, elas não puderam operar das pistas pouco preparadas que encontraram. Vários se perderam em acidentes de pouso, e logo regressaram à Rússia. Embora fosse um excelente avião, era muito sensível, principalmente o sistema do trem de pouso, e a aviação de combate não precisa de uma aeronave tão delicada.

O Alto Comando em Washington rapidamente vislumbrou que a USAF perderia a superioridade aérea nos céus da Coréia, e imediatamente ordenou o preparo e envio do 4º Grupo de Caças equipado com F-86A Sabres, talvez a melhor unidade existente na USAF, com muitos pilotos veteranos da 2ª Guerra Mundial. Enquanto isso, o Exército Chinês colocava mais pressão nas tropas da ONU, cuja única válvula de escape eram os ataques dos B-29, escoltados pelos F-80, em defesa contra os Migs.

No dia 10 de dezembro, o porta aviões USS Cape Esperance (CV-88) chega à Baía de Tóquio com pilotos, equipes de manutenção e apoio, equipamentos e aeronaves do 4º Grupo de Caça. Finalmente as forças da ONU teriam um caça capaz de enfrentar o Mig-15 de igual para igual. A prioridade foi dada ao transporte dos caças para a Coréia. O tempo urgia, já que os chineses avançavam firmemente em direção ao sul, reconquistando o terreno perdido. Era consenso de todos que a presença do Mig-15 poderia influir diretamente no andar da guerra, ao conquistar o domínio dos céus. O Sabre era o único caça da ONU que poderia combater o Mig-15. Infelizmente, embora todas as precauções tivessem sido tomadas para proteger os F-86 dos efeitos da longa viagem marítima, principalmente da água salgada, a corrosão afetava algumas partes e causava problemas em outras, como por exemplo nos sensores de combustível das asas e nos equipamentos elétricos. Algumas aeronaves levaram semanas de intensa manutenção antes de estarem em condição de voar do Japão para a Coréia.


Imagem dos F-86 a bordo do USS Cape Esperance,
quando sendo transportados para a Coréia.

O primeiro planejamento determinava que dois esquadrões ficariam localizados em bases avançadas na Coréia, com um terceiro sendo empregado como reserva técnica no Japão. Cinco dias após chegarem ao Japão, um grupamento avançado já voava para Kimpo, de modo a organizar as atividades do Grupo. O Tenente Coronel Bruce Hinton, levou o primeiro dos sete F-86 que escaparam da corrosão, já realizando missões de familiarização naquela mesma tarde. No dia seguinte, forte tempestade de neve não permitiu qualquer atividade aérea.

No dia 17 de dezembro, quatro F-86 realizariam a primeira missão oficial de guerra dessas aeronaves, equipados com dois tanques de combustível externos de 275 galões cada, e armados com 2 000 cartuchos incendiários de metralhadora .50. Os tanques davam ao F-86 um alcance operacional de 490 milhas, o suficiente para irem até o Vale do Yalu e voltarem, mas não permitindo muita folga. Foi dado à missão o código de chamada BAKER, e às 14:05, BAKER 01 e 02 já decolavam, seguidos rapidamente dos BAKER 03 e 04. Um dos Sabres apresentou problemas no mecanismo do trem de pouso, provavelmente devido a água do degelo existente na pista, mas logo sanado com os procedimentos de correção. Os pilotos americanos sabiam que nas bases da Manchúria, os Mig-15 estariam em alerta, prontos para levantarem vôo e realizarem um combate histórico. Liderava a esquadrilha o Tenente Coronel Bruce Hinton, comandante do destacamento avançado. Voando em direção norte, os Sabres subiram até 25 mil pés em direção a Sinuiju, que ficava a 200 milhas de distância. Ao cruzarem Pyongyang, testaram suas metralhadoras, e reduziram a velocidade, de modo a simular o F-80. O céu estava claro e de um azul lindo, com o solo totalmente coberto de branco por causa da neve, formando um contraste espetacular. Um cenário preparado especialmente para os guerreiros alados.

A 5 milhas de Sinuijo, fizeram uma curva à direita, abriram a formatura e começaram patrulhar ao longo do Rio Yalu, mantendo o sol por trás. De repente, ouve-se no rádio um grito de "Bandidos às 9 horas baixo, cruzando BAKER 02". Eram quatro Migs, cruzando 20 mil pés e subindo rapidamente, a uma milha a frente dos Sabres. O comandante ordenou imediatamente que se alijassem os tanques subalares, mas seu rádio falhou. A esquadrilha de Migs se posicionou a direita dos Sabres, e realizando uma curva que os levaria diretamente a eles. Sem perder tempo, o comandante americano alijou seu tanque externo, empurrou as manetes do motor toda à frente, realizando um curva apertada, que os levou para uma posição favorável em relação aos Migs, ou seja, os Migs subiam em direção aos Sabres e esses desciam em direção aos Migs. O líder e o nº 2 atacavam o líder dos Migs, enquanto que os nº 3 e 4 atacavam os demais. Quando estavam separadas de uns 4 mil pés, os tanques subalares dos Migs se ejetaram. Esses tanques dos Migs, montados quase que sob a fuselagem, ficavam muito junto da superfície inferior das asas, e possuíam um mecanismo de ejeção, que os faziam primeiro torcer e depois rodar, largando um longo rastro de combustível.

Nessa altura do combate, a velocidade dos Sabres era enorme, chegando a alcançar 0,98 Mach, e os Migs começaram a se afastar uns dos outros, com os nº 3 e 4 passando por baixo do nº 1 e 2, que mudavam de uma subida com curva à direta para um vôo nivelado, com o líder ligeiramente mais alto que o nº 2. O Ten Cel Hinton, abriu fogo, quando estava a uns 1.500 pés de distância dos Migs, com suas seis metralhadoras .50, e observou que o líder havia sido atingido, provavelmente em seu tanque interno e ao mesmo tempo que o seu nº 2 não estava mais com ele. Notou também que o líder dos Migs realizou uma curva de 35° para a esquerda e ao mesmo tempo abriu e fechou seu flap de mergulho, fato esse que permitiu que o Sabre se aproximasse mais ainda do Mig e disparasse uma nova rajada, desta vez atingindo-o mortalmente. Pedaços da fuselagem se soltaram e ao mesmo tempo uma chama consumia o motor. Ele perdeu rapidamente velocidade, e o piloto do Sabre teve que que abrir seu air brake, e reduzir o motor para evitar o choque. As aeronaves passaram a voar muito lentamente, com o Sabre acompanhando o Mig muito de perto. O Mig perdia altitude rapidamente, inclinado 45° para a esquerda, mas não explodia, embora as chamas o consumisse. Uma nova rajada foi dada, e desta vez era o fim. Pelo rádio, o Ten Cel Hinton escutava a conversa das outras três aeronaves, mas estava incapacitado de responder nem de localiza-las. O nº 2 dizia que tinha visto uma aeronave cair em chamas, mas não sabia dizer se era um Mig ou um Sabre. Foi um longo regresso solitário para Kimpo do Ten Cel Hinton, mas feliz da vida, por ser o primeiro piloto de F-86 a abater um Mig-15.

O desempenho e a robustez do Mig-15 fiou enfatizada neste combate. Muitos deles foram, ao longo da guerra duramente atingidos, mas não caíram. Neste combate, o Ten Cel Hinton gastou 1 802 cartuchos de suas metralhadoras para derrubar o Mig. A partir dessa data, os Migs passaram a voar em formações mais numerosas. Cinco dias mais tarde, 15 Migs combateram 9 Sabres e em outra ocasião 35 Migs combateram 16 jatos da USAF.