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Os Meteors Argentinos: os primeiros caças a jato latinos americanos

 

         No dia 11 de julho de 1947, o piloto inglês Willian Waterton subiu no cockpit de um Gloster G.41G Meteor F.Mk IV, ligou os motores e decolou a aeronave pela Avenida Edison próxima ao porto de Buenos Aires, dirigindo-se em vôo para a Base Aérea de El Palomar, realizando assim o primeiro vôo de um caça a jato na América Latina. Sendo o único caça a jato do continente, os Glosters, juntamente com os bombardeiros Avros Lancaster e Lincoln, que equipavam aquela força aérea na época, garantiam à Força Aérea Argentina um poder aéreo estratégico único e inigualável na região.

 

 

         Ao final da 2ª Guerra Mundial, a aviação argentina beneficiou-se do posicionamento neutro adotado pelo país. Por um lado, uma grande leva de imigrantes alemães, principalmente cientistas, técnicos e pilotos deu um enorme impulso à indústria aeronáutica local. Por outro, as dívidas britânicas com a Argentina, principalmente pelo fornecimento de alimentos e matéria prima durante a guerra, e que agora eram impossíveis de serem pagas em dinheiro, seriam pagas com produtos manufaturados. A Grã Bretanha propôs o pagamento em material militar, embora não houvesse aprovação americana. Entre esse material haviam 15 bombardeiros Lancasters, 30 Lincolns e 100 caças a jato Glosters G.41G Meteor F.Mk IV, que possuíam envergadura um pouco menor do que as demais versões.

No início do ano de 1947, o piloto de testes da Fábrica Militar de Aviones (FMA), o 1º Tenente Edmundo Weiss, foi enviado para a Grã Bretanha para avaliar o equipamento a ser recebido, tornando-se assim o primeiro piloto argentino a voar o Gloster. Mais tarde, outros 11 pilotos foram enviados para a Grã Bretanha para realizarem o treinamento no caça. Lá iniciaram o curso, voando antigos Avro Anson, para se adaptarem a aeronaves bi-motoers; em seguida pilotaram o de Haviland Dove, para adaptação ao pouso em aeronaves triciclos e em seguida foram para o Gloster Mk III, para serem iniciados ao jato. Após seis horas de vôo neste último modelo, os pilotos argentinos passaram a voar seis Mk IV argentinos, onde praticaram por pelo menos 30 horas.

 

 

                  Os primeiros 50 Glosters haviam sido construídos para a Royal Air Force (RAF) e os outros 50 foram especialmente montados para a Fuerza Aérea Argentina (FAA). Esses foram os primeiros Glosters a serem exportados.

 

 

         Os primeiros exemplares foram enviados por via marítima, com  numeração de I-001 a I-006, chegando a Buenos Aires no dia 8 de julho de 1947. Para transporta-los até a Base Aérea de El Palomar, uma pista foi adaptada na Avenida Edison, de onde decolaram.  No dia 19 de julho, eles participaram de uma parada aérea, diante de uma multidão entusiasmada. Entre 7 e 30 de setembro, dois exemplares foram as vedetes de uma exposição aeronáutica, realizada na principal avenida de Buenos Aires, a 9 de Julho.

         No dia 3 de dezembro de 1947, a primeira unidade equipada com caças a jato foi oficialmente criada: o Regimiento 4 de Caza Interceptadora (R.4Caz), operando a partir da Base Aérea Militar de Tandil em Buenos Aires. Os argentinos encontraram muitos problemas devido a complexidade da aeronave, quando comparada com as que operavam anteriormente, e muitos incidentes ocorreram nos primeiros dias de operação. O Meteor possuía uma concepção totalmente desconhecida para os militares argentinos, embora fosse na realidade um jato bastante primitivo.

         As aeronaves seguintes, foram recebidas e montadas no Instituto Aerotécnico da Fábrica Militar de Aviones em Córdoba, com alguns pequenos incidentes, tais como a perda da fuselagem da aeronave I-021, que caiu em um rio e que só consegui ser finalmente montado dois anos depois. A primeira aeronave perdida aconteceu no dia 23 de abril de 1948, quando a aeronave I-018 explodiu em vôo, quando realizava uma acrobacia, durante a fase de avaliação de recebimento.

 

 

 

         Imediatamente após a chegada dos primeiros Glostres, a instrução dos pilotos foi iniciada, sendo que a FAA utilizou experiência do legendário ás da caça alemã da 2ª Guerra Mundial, Adolf Galland, que imigrara para a Argentina  após o fim da guerra. Galland, juntamente com outros pilotos alemães, e com sua vasta experiência, transmitiu aos pilotos ensinamento de combate ar-ar e de ataque ar-terra, ajudando a modernizar as táticas de combate da FAA, que como as demais forças aéreas latino americanas, ainda utilizava táticas de pré-guerra.

         Em março de 1949, todas as bases aéreas militares e seus regimentos, passaram a ser chamados de brigadas, e assim a R.4Caz passou a ser denominada IV Brigada. Em julho, o 6º Regimento de Interceptadores recebeu seus primeiros Glostres.

         Em janeiro de 1955, uma nova reorganização na FAA foi realizada. Os regimentos acabaram e em seu lugar os Grupos de Caça 2 e 3 foram criados, e seus 55 Glosters enviados para a Base Aérea de Morón, localizada nos subúrbios de Buenos Aires, com as demais aeronaves sendo armazenadas em Tandil.

         Além de montar as aeronaves, a FMA montou também os motores e executava os ciclos de manutenção. Realizou também projeto para converter alguns monoplaces em biplaces, de modo a serem utilizados como aeronaves de reconhecimento. O projeto não foi adiante, mas três aeronaves foram convertidas (I-040, I-090 e a  I-095).

 

 

         Com a situação política Argentina conturbada pelo peronismo, os Glosters passaram a operar do Aeroporto de Ezeiza, de modo a defenderem a capital e o governo. Lá permaneceram até o final de 1951. Em 1952, a FAA realizou pela primeira vez o exercício Operativo Defensa, onde os Glosters regularmente interceptavam os bombardeiros Lancasters e Lincolns por sobre Buenos Aires e outras cidades argentinas.

         Entre 12 e 16 de setembro de 1953, 12 Glosters e quatro Lincolns visitaram Santiago do Chile, na primeira viajem internacional das aeronaves, onde realizaram diversos sobrevôos na capital chilena, em comemoração ao Dia da Independência daquele país.

         Alguns Glosters foram alocados como aeronaves de testes, sendo que o I-087, em especial, foi utilizado no Projeto PT-1, de desenvolvimento de um míssil ar-terra. Nesta aeronave, o míssil foi posicionado no local do tanque de combustível da fuselagem, para testes aerodinâmicos e depois a aeronave foi utilizada como aeronave “paquera” nos  testes de tiro real. O projeto foi finalmente cancelado em 1958.

         Em junho de 1955, aconteceu uma nova tentativa de depor o Presidente Juan Perón. O dia amanheceu com combates aéreos por sobre Buenos Aires. Quatro Beechcharft AT-11 e 15 AT-6A  Texans da Base Naval de Punta Indio, bombardearam a Casa Rosada, sede do governo argentino, acreditando que Perón estivesse lá. Quatro Glosters, comandados pelo 1º Tenente Juan Garcia, decolaram de Ezeiza para interceptar as aeronaves, bem como outras duas a partir de Morón, comandados pelo 1º Tem Juan Carlos Carpio, com a mesma missão. Essas últimas duas aeronaves, eram tripuladas por oficiais simpatizantes ao golpe, e por isso apenas sobrevoaram a cidade, sem interceptarem as aeronaves atacantes.

         Após sobrevoarem os prédios governamentais, que estavam em chamas, os Glosters, comandados por Garcia, localizaram os T6 por sobre o Aeroparque, a cerca de 5 km da Casa Rosada. Um ataque foi realizado, mas com pouca eficiência, pois apenas um dos AT-6 foi abatido, e os demais, como o céu estava muito nublado, conseguiram se esconder nas nuvens e regressar a Ezeiza.

         Minutos mais tarde, o Vicecomodoro Carlos Síster, comandante do Esquadrão I, decolou com o Gloster I-052 para atacar as aeronaves rebeldes que estavam pousadas no aeroporto de Ezeiza.  O ataque foi realizado a baixa altura. Em seu primeiro passe, nada foi atingido. No segundo, duas aeronaves civis foram danificadas. No terceiro, os canhões emperraram e ele abortou o ataque, retornando a sua base.

 

 

         Enquanto isso, um grupo de rebeldes tomava controle da Base Aérea de Morón e realizavam vários ataques contra antenas de rádio e contra a Casa Rosada. No meio da tarde, quando AT-6, AT-11 e Catalinas atacaram prédios governamentais, seguidos dos Glosters da Base de Morón. Os jatos voaram baixo, por entre os prédios da Avenida de Maio, até chegarem a Casa Rosada, onde foram recebidos por fogo anti-aéreo. Um dos Glosters, pilotado pelo Tenente Guillermo Palácio, largou seu tanque de combustível ventral, como uma bomba de napalm, atingindo alguns veículos. Os combates continuaram ao longo do dia, mas ao término do mesmo, as forças rebeldes foram derrotadas, e os Glosters rebeldes, juntamente com uma aeronave C-47 da Marinha, escaparam para o Uruguai. Um total de seis Glosters escaparam, sendo que um realizou uma amerrissagem por falta de combustível e outro teve que pousar de barriga, por falha no sistema hidráulico. Mais tarde, essas aeronaves retornaram à Argentina.

         Após a revolução, as unidades da FAA retornaram às suas atividades normais, sendo que onze Glosters passaram a operar na VI Brigada Aérea em Tandil, até 1957. Nesta época, o número total disponível de Glosters já estava reduzido a menos que 50% de sua lotação original, enquanto que a FAA aguardava ansiosamente a chegada do F-86 Sabre. Neste período, foram formadas várias unidades de demonstração utilizando o Gloster, para apresentações tanto no país como no exterior.

         Em novembro  de 1959, os Glosters participaram de uma série de exercícios de interceptação contra os Avros Lincolns, defendendo a capital do país, operação denominada Tigre. No ano seguinte, o exercício repetiu-se, na denominada Operação Costanera.

         Em setembro de 1962, os Glosters mais uma vez entraram em combate, atacando a Escuela de Suboficiales de Ejercito com foguetes      T-10, cujos membros estavam entrincheirados no Parque Chacabuco em Buenos Aires. Os ataques do Glosters foi fundamental para acabar com mais um levante político argentino.

         Uma nova ação, ocorreu em abril de 1963, quando quatro Glosters, dois Lincolns, quatro Sabres e quatro Marane-Saulnier Paris, juntamente com o Regimiento de Caballería de Tanques 8, atacaram a base de aviação naval de Punta Índio, onde fuzileiros navais estavam se rebelando.

         Em 1963, por causa de seu emprego como aeronave de ataque, o padrão de pintura dos Glosters foi modificado: saiu o alumínio natural e entrou a pintura camuflada verde e cinza na parte superior e azul na inferior. Este padrão foi mantido nos Glosters até o final de sua vida operacional.

         No início dos anos 60, várias aeronaves foram modificadas para utilizarem a metralhadora Colt-Browning 12.7mm, que já eram empregadas nos Sabres, no lugar dos quatro canhões Hispano Suiza de 20mm.

         No início do ano de 1956, o governo Argentino manifestava seu interesse em adquirir 36 aeronaves Canadair Sabre Mk 6, mas a falta de recursos financeiros adiou a compra, e os Glosters tiveram que permanecer em serviço. Mas em 1960, 28 F-86F-30 (modificados para o padrão F-40), foram adquiridos dos Estados Unidos, permitindo que os remanescentes Glosters pudessem se dedicar exclusivamente às missões de ataque ao solo.

 

 

 

         O começo do fim da era Gloster na FAA, começou em 1966, com a chegada de um lote de 25 A-4B Skyhawks, ao mesmo tempo em que os Glosters da unidade de Caza Bombardeo 2 eram transferidos para a IV Brigada Aérea em Mendoza, juntamente com a unidade de Morane Saulnier MS.760 Paris. Em 1967, os últimos 20 Glosters eram transferidos para a  unidade de Caza Bombardeo 3 da VII Brigada Aérea, juntamente com 45 Mentors e um Bell UH-1H. Em 1969, com a dissolução da unidade de Caza Bombardeo 3, as aeronaves passaram a fazer parte do Grupo Aéreo 7.

         Com a chegada do segundo lote de A-4B em 1970, juntamente com os primeiros Dassault Mirage III, finalmente os Glosters tiveram encerrada sua vida operacional de 20 anos na FAA. Em dezembro de 1970, os últimos 12 Glosters ainda em serviço, sobrevoaram Buenos Aires pela última vez. Assim terminou a carreira operacional do primeiro caça à jato da América Latina. Cerca de 20 aeronaves foram preservadas e estão distribuídas por museus, monumentos e escolas técnicas.