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O decisivo papel do

Poder Aéreo

na Campanha do Pacífico

durante a 2ª Guerra Mundial

 

 

 

Introdução

 

Quando os japoneses iniciaram a guerra no Pacífico no dia 7 de dezembro de 1941, eles fizeram com uma incrível e dramática demonstração do poder aéreo. Em questão de minutos, a aviação naval japonesa aplicou um golpe mortal no poderio naval americano no Pacífico. Nos dias e meses que se seguiram, as forças japonesas avançariam pelas ilhas do Pacífico, sempre utilizando o poder aéreo como meio de obter e conquistar seus objetivos, deixando atônitos os defensores para aquele tipo de guerra. Os aliados aprenderam muita bem a lição sofrida, quando iniciaram o caminho da vitória no ano seguinte. Com vastas distâncias envolvidas no Teatro do Pacífico, e com a onipotência  das forças japonesas, o poder aéreo era uma arma vital do poderio de combate aliado. Enfrentando um inimigo fanático, logo os aliados descobriram que, sem o Poder Aéreo, suas tropas ficariam criticamente expostas, permitindo enorme perda de material e de vidas. Conforme os japoneses ficavam mais fracos, o poder industrial americano e as reservas humanas, começaram a fazer diferença, juntamente com novos e melhorados equipamentos, que conseguiram juntos, delinear a forma da campanha em direção à vitória. Não menos importante nesse esforço, foi a introdução de uma nova e mais capaz aeronave, particularmente o bombardeiro pesado B-29. Foi, a partir deste avião que o ato final da guerra se caracterizou, quando do lançamento de duas bombas atômicas sobre a ilha principal do Japão.

 

Surpresa

 

Historiadores contemporâneos concordam que o ataque japonês a Pearl Harbour não foi nenhuma surpresa. A nível operacional, seus argumentos são irrelevantes – independentemente do grau de expectativa e dos preparativos para a defesa, que foram totalmente inadequados. O comandante japonês, Vice Almirante Nagumo, navegou até um ponto a 200 milhas ao norte da ilha de Oahu, antes de lançar duas levas de ataque contra Pearl Harbour na manhã do dia 7 de dezembro de 1941. Mais de 350 aeronaves, entre bombardeiros, torpedeiros e caças obtiveram completa surpresa tática. Os aviões torpedeiros japoneses foram capaz de lançar suas mortíferas cargas, em águas rasas, numa demonstração importante de inovação tecnológica do poder aéreo. Como resultado, a Esquadra Americana do Pacífico foi efetivamente neutralizada, embora os cruciais, porta-aviões americanos, por não estarem em Pearl Harbor naquele dia, tivessem escapado da destruição.

 

 

 

 


 

Na manhã do dia 8 de dezembro de 1941, aeronaves da Imperial Marinha Japonesa e da Força Aérea do Exército Japonês, atacaram alvos nas Filipinas, a partir do porta-aviões Ryujo e de bases terrestres em Formosa. A surpresa foi fator chave, em parte proporcionada pelo excelente raio de ação do caça japonês Zero. Testes realizados antes da guerra, possibilitaram que o raio de ação deste caça alcançasse as mil milhas, algo inimaginável para os americanos, demonstrando mais uma vez a importância da interação da inovação tecnológica com o poder aéreo. Ao final daquele dia, metade dos bombardeiros pesados e um terço dos caças da United States Far East Air Force foram destruídos e as aeronaves restantes estivessem, em sua maioria, bastante danificada.  Em questão de dias, os japoneses tinham completo controle do ar sobre as Filipinas, com pouquíssimas perdas. Uma vez mais, a adequada utilização do poder aéreo fez a diferença, corroborada com a simples aplicação da surpresa. Essa habilidade do poder aéreo de atuar como uma força múltipla, de desferir um golpe paralisante num curto espaço de tempo e com relativo pouco esforço, seria dramaticamente demonstrada pela US Navy na Batalha de Midway, em junho de 1942.

 

 

Os japoneses planejaram um elaborado plano de capturar a Ilha de Midway e de destruir a remanescente esquadra americana. Com o conhecimento prévio destes planos, através de sinais da Inteligência, os americanos         reforçaram as defesas de Midway e posicionaram três porta-aviões ao norte da ilha. As aeronaves embarcadas americanas, no decorrer da batalha, conseguiram pegar os japoneses despreparados. Apesar de enormes perdas matérias e humanas, por utilizarem aeronaves obsoletas, torpedeiros lentos e ataques não coordenados, três porta-aviões japoneses foram afundados em menos de 5 minutos por 37 bombardeiros de mergulho americanos SBD Dauntless. A luta continuou ao longo do dia, quando um quarto porta-aviões japonês e o porta-aviões americano USS Yorktown foram à pique. O resultado deste ataque surpresa contra as forças japonesas, teve uma importância estratégica muito além do esperado. A invasão de Midway foi abandonada, impedindo a expansão japonesa através do Pacífico. A força de porta-aviões japonesa recebeu um duro golpe, do qual nunca mais se recuperariam. Tudo isso foi alcançado através do poder aéreo,  demonstrando que um punhado de aeronaves, mesmo em disparidade de condições, podiam alcançar uma vitória surpreendente para as condições em que estavam operando. Assim funcionavam unidos o poder aéreo e os atributos da surpresa, nos primeiros dias da Guerra do Pacífico. Sem sombra de dúvida, o poder aéreo demonstrava seu potencial como uma força múltipla, com sua habilidade de atacar de maneira decisiva e esmagadora. O papel da tecnologia foi também evidente. A vulnerabilidade das forças terrestres e navais, diante dos ataques aéreos, era agora óbvia, e as primeiras lições da necessidade de se obter superioridade aérea para a realização de qualquer ação militar fora aprendida.

 

Ritmo, Perseverança e Concentração de Esforços

 

No início de agosto de 1942, os US Marines (Fuzileiros Navais)  desembarcaram na Ilha de Guadalcanal, no arquipélago das Ilhas Salomão e ocuparam o recém aeródromo construído pelos japoneses. No final daquele mês, um pequeno destacamento de aeronaves dos US Marines e da US Army Air Force, passaram a operar do então nomeado Henderson Field.  Começou então uma desesperada e longa batalha, envolvendo a posse do aeródromo e o domínio aéreo na região. Operando a partir das Ilhas Novas  Hébridas (atual Vanuato) bombardeiros   B-17, realizaram milhares de operações, atacando navios e tropas japonesas nas Ilhas Salomão, bem como missões de reconhecimento, mas as maiores batalhas aconteceram ao redor de Henderson Field. Bombardeado pelo ar durante o dia, atacado constantemente por tropas japonesas e bombardeado à noite pela Marinha japonesa, a aeródromo ficava sob ameaça permanente de ser perdido. Nenhum lado podia declarar que possuía superioridade aérea; as forças americanas eram pequenas e desacreditadas, enquanto que as bases japonesas ficavam localizadas muito longe e os japoneses não queriam correr o risco de enviar seus porta-aviões para a região e perdê-los. De qualquer modo, o aeródromo foi mantido aberto e as aeronaves americanas realizavam missões diariamente, capazes de infligir danos às forças japonesas no ar, em terra e no mar. Foi esse ritmo de operação, com persistência que começou a desgastar as forças japonesas. Ambos os lados reconheciam a vulnerabilidade de suas forças navais, e embora a presença dessas forças tenha resultado e diversas batalhas, nenhum dos lados foi capaz de dominar a região apenas pelo controle dos mares. Mas o poder aéreo era capaz de desenvolver um constante esforço, evitando que os japoneses conseguissem desalojar os americanos de Guadalcanal. Um bom exemplo dessa situação, ocorreu no período de 14 a 15 de novembro de 1942, quando os japoneses realizaram a última tentativa de retomar a ilha. Uma força de invasão composta de 12 navios de transporte com escolta, carregando cerca de 35 mil homens, foi descoberta pelas B-17 em missão de reconhecimento. Imediatamente, aeronaves dos porta-aviões americanos foram lançadas para atacar esta força, sendo que no final, apenas 4 transportes sobreviveram. Essas tropas foram abandonadas nas praias de Guadalcanal, e no dia 15 de novembro, foram atacadas e aniquiladas por aeronaves americanas proveniente de Handerson Field. Resumindo: em dois dias o poder aéreo acabou com as últimas esperanças japonesas de retomar a ilha, através de sua habilidade de concentrar esforços em um único objetivo e de manter o ritmo das operações.

 

O ritmo das operações causou problemas ao Exército japonês: eles começaram a perder a guerra pelo desgaste, embora possuíssem aeronaves fantásticas, como o caça Zero, que era na época, muito melhor do que qualquer aeronave americana. Mas havia uma falha no pensamento operacional japonês. Embora o Zero fosse uma aeronave altamente manobrável e com enorme raio de ação, ele só conseguiu alcançar esses resultados por causa de seu pequeno peso bruto e conseqüente, pouca blindagem. Por outro lado, provou ser extremamente vulnerável em combate, pois não possuía tanques de combustível auto-selantes. Os pilotos aliados, logo descobriram táticas conservadoras, que permitiam sua sobrevivência em combate, ajudadas pela maior robustez de suas aeronaves. Era uma pequena vantagem tecnológica, mas contribuiu de sobremodo para contrabalançar a taxa de atrito imposta nos combates. Os resultados, eram em algumas ocasiões, espetaculares, como num combate sobre Henderson Field no dia 23 de outubro de 1943, quando os americanos enviaram 28 caças contra uma força de 16 bombardeiros e 25 caças japoneses. O resultado da batalha foi a derrubada de 22 aeronaves japonesas, sem perdas para os americanos.

 

Mas os japoneses, não se preocupavam com essas perdas materiais e principalmente com a perda seus melhores pilotos, baseados em seu rígido código militar, o Bushido. De acordo com essa cultura, a morte era preferível à rendição. Era uma disciplina rígida, que impregnava todos os aspectos do pensamento militar japonês. Em particular, as batalhas das Ilhas Salomão e da Nova Guine, foram a hemorragia mortal do poder aéreo japonês. Após Bougainville, os experientes pilotos da marinha japonesa foram lançados na defesa de Rabaul, sendo que no final da campanha, 70% de seus mais valiosos pilotos foram perdidos. Quando os aliados destruíram finalmente a Base de Hollandia na Nova Guiné, a Força Aérea do Exército Japonês havia sido eliminada como arma efetiva, com a perda de 90% de seus pilotos experientes.

 

Aconteceram outros exemplos de ritmo, persistência e concentração de esforços na Campanha do Pacífico. Apesar dos horripilantes combates em terra, o poder aéreo possuía poder de fogo suficiente para suportar e manter as posições dos infantes, através de sua habilidade de regenerar e reaplicar, de sobreviver e contra-atacar, e de mover-se de um alvo a outro, seja defensiva ou ofensivamente, conforme a missão fosse necessária. Embora as tropas terrestres mantivessem as bases, e as forças navais batalhassem pela supremacia naval, foi o poder aéreo que mais uma vez alcançou e fustigou os inimigos, concentrando poder de fogo suficiente para se alcançar os resultados esperados.

 

Alcance

 

O alcance é fator fundamental do poder aéreo. Quando os japoneses atacaram Pearl Harbour, eles iniciaram a Guerra do Pacífico com uma clássica demonstração de como uma operação conjunta (naval e aérea) poderia ser bem sucedida. Com o decorrer da guerra, cada vez mais a habilidade do poder aéreo foi decisiva, principalmente pela sua capacidade de alcance. O alcance permitiu que aeronaves procurassem e engajassem forças inimigas, que observassem e relatassem sua presença, freqüentemente  não-detectados e não-atacados. O alcance permitiu que aeronaves dos porta-aviões, de ambos os lados, cruzassem os oceanos à procura de alvos, enquanto suas bases permaneciam sob proteção aérea e naval. Finalmente, no limiar da guerra, o expressivo alcance dos B-29 permitiu que os mesmos lançassem sobre o Japão uma chuva de destruição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vários exemplos óbvios podem ser relatados de como a capacidade de alcance do poder aéreo foi decisiva no resultado da batalha: Pear Harbour, as batalhas do mar de Coral em 1942 e a Batalha de Midway. Em todos os casos, foram os aviões que localizaram as forças inimigas, bem como que realizaram os ataques. Os marinheiros americanos e japoneses, nunca viram seus oponentes, mas estavam vulneráveis aos ataques de aeronaves inimigas. Nas Ilha Solomão e na Nova Guiné, aeronaves dos dois lados, utilizando o atributo do alcance, realizaram longos reconhecimentos e ataques. Do lado japonês, hidroaviões e bombardeiros adaptados e do lado americano, o PBY Catalina e os B-17. Apesar de estarem operando a mais de 500 milhas de distância, os bombardeiros japoneses em Rabaul, atacavam regularmente a base de Handerson Field em Guadalcanal, freqüentemente acompanhados por aeronaves de porta-aviões, e quase conseguiram tornar aquele aeródromo inutilizado. De modo similar, as   B-17 realizavam missões até as Ilhas Salomão, infernizando os japoneses. Conforme a campanha do Pacífico se desenvolvia, a guerra tornou-se uma batalha pelo próximo aeródromo conveniente, e a cada vitória obtida, o poder aéreo ficava capaz de atingir mais e mais distante. Isso ficou bem claro durante a luta pelas Ilhas Salomão em 1943 e pelas Ilhas Marianas no verão de 1944. Na primeira, as forças aliadas realizaram um deliberado progresso, capturando e reparando as bases japonesas capturadas, antes de prosseguirem para outros alvos, tendo a certeza de possuírem adequada cobertura aérea. Quanto mais os aliados avançavam, maior alcance passava a ter o poder aéreo. Quando da invasão das Ilhas Marianas, o objetivo estratégico era o de estabelecer nas ilhas Saipan, Tinian e Guan, bases aéreas para as B-29, de modo que estas pudessem atacar o Japão. A perda dessas ilhas, foi um baque tão grande e sério no Governo Japonês, que o Primeiro Ministro General Hideki Tojo, renunciou. No dia 24 de novembro de 1944, aconteceu o primeiro  ataque das B-29 à ilha japonesa, partindo das Marianas., quando as aeronaves cobriram uma distância de 3 mil milhas. Era o poder aéreo sendo empregado em seu máximo esforço.

 

O conceito de alcance, foi sem sombra de dúvida,  a contribuição vital que o poder aéreo deu à Campanha do Pacífico. O poder dos porta-aviões, só aconteceu por causa do poder aéreo, que teve papel preponderante no avanço americano em direção às ilhas japonesas, conquistando cada uma das ilhas, permitindo que os bombardeiros alcançassem com mais facilidade o coração japonês.

 

Efeito Estratégico

 

Quando escrevia suas famosas memórias, Winston Churchill, expôs claramente o significado da importância estratégica do ataque japonês a Pearl Harbour. Deixando de lado a mera vitória militar, ele explicou as conseqüências globais daquela ação. Algumas poucas centenas de aeronaves, com um único golpe, haviam alterado o balanço militar e atraído os Estados Unidos para a guerra.

 

Numa tentativa de dar um troco ao bem sucedido ataque a Pearl Harbour, o Presidente Roosevelt procurou atacar a terra japonesa e ao mesmo tempo, elevar a moral da sociedade americana. Uma audaciosa missão foi então planejada e executada no dia 18 de abril de 1942, liderada pelo Ten Cel James Doolittle, quando dezesseis bombardeiros médios B-25 foram lançados a partir do porta-aviões Hornet, num ponto a 800 milhas de Tóquio, numa combinação única de poder marítimo e aéreo. Bombas foram lançadas sobre Tóquio e outras cidades japonesas. Embora o dano causado fosse mínimo, o ataque produziu um resultado estratégico importante: os japoneses imediatamente tiveram que alocar aeronaves para a defesa dos céus pátrios. E mais, ficaram mais tentados a atacar Midway, onde obteriam uma fragorosa derrota do ponto de vista estratégico.

 

O Almirante Isoruku Yamamoto, Comandante da Frota Combinada Japonesa, era reconhecido por todos, como tendo sido o mentor das vitórias japonesas pelo Pacífico, sendo visto como um forte e bem preparado líder. No dia 18 de abril de 1943, após interceptação de transmissão de rádio por parte da inteligência americana, uma esquadrilha de caças P-38 Lightings, voou mais de 400 milhas, desde Henderson Field, para interceptar e abater uma aeronave que transportava Yamamoto. Somente o poder aéreo poderia realizar tal ação estratégica sozinho. È difícil quantificar o efeito causado pela perda de Yamamoto, mas a moral da Imperial Marinha Japonesa sofreu uma enorme queda. O caça P-38, com o qual foi realizada a missão, obteve um sucesso extraordinário, pois ele havia sido recém introduzido em serviço no Teatro do Pacífico. Com resistência, alcance e poder de fogo suficientes para sobrevir a demanda do meio ambiente do Pacífico Sul, este caça é um outro exemplo do sucesso da inovação tecnológica aliada – a adaptação do poder aéreo às demandas da batalha, para obtenção de vantagem.

 

Conforme o poderio da força de porta-aviões da US Navy crescia, aumentava também o poder e a capacidade de supremacia do poder aéreo. Durante o ano de 1944, ambos os lados chegaram a uma conclusão que deveria haver uma grande batalha naval, e quando os americanos invadiram as Marianas, o Almirante Ozawa chegou a conclusão que a hora desta grande batalha havia chegado. No dia 19 de junho de 1944, numa batalha que acabou sendo denominada de “Tiro ao Peru das Marianas”, os aviões embarcados americanos destruíram cerca de 300 aeronaves japonesas, perdendo apenas 26, e com os navios de guerra americanos sofrendo pouquíssimo dano. Neste e no dia seguinte, as aeronaves americanas afundaram também, três porta-aviões japoneses. Foi um golpe estratégico duríssimo, que a Imperial Marinha Japonesa, nunca mais poderia se recuperar. A batalha marcou o fim dos porta-aviões japoneses como uma força de combate.

 

Com o Japão totalmente batido daí para frente, o poder aéreo era o modo mais adequado para prosseguir com os planos estratégicos da Campanha do Pacífico. As batalhas do Mar do Coral e de Midway, baseadas no poder aéreo, impediram a expansão territorial japonesa. Pequenas e isoladas ações, como o ataque de Doolittle, produziram conseqüências estratégicas muito maiores do que os efeitos militares obtidos, efeitos esses que só seriam possíveis, através da flexibilidade e do alcance do poder aéreo. Finalmente, foi o poder aéreo que tornou impotente a força de porta-aviões japoneses, aniquilando seu poder estratégico, sobre julgado pelo poderio militar americano, em especial o poder aéreo.

 

Flexibilidade e Versatilidade

 

No dia 3 de junho de 1942, um hidroavião Cataliana, realizando missão de patrulha, localizou um grupo de navios de transportes japoneses, dirigindo-se para Midway. Neste mesmo dia, quatro outros Catalinas, realizando um vôo de 9 horas, foram transferidos de Pearl Harbour para Midway. Essas novas aeronaves, foram imediatamente empregadas numa missão de atacar esses transportes, missão esta, que eles não estavam preparados, qual seja, torpedear navios. A inovação e adaptação, resultou no afundamento de um dos transportes, revelando a natureza da flexibilidade do poder aéreo americano. Esse ataque também afetou o pensamento tático japonês durante a batalha que viria a acontecer, pois ficaram muito focados na destruição das instalações e equipamentos de Midway, esquecendo dos porta-aviões. As conseqüências estratégicas da Batalha de Midway já foram ditas anteriormente – como a flexibilidade do poder aéreo contribuiu desde o início das ações para o resultado final da vitória.

Flexibilidade e versatilidade foram os ingredientes do sucesso aliado em Guadalcanal. Os caças P-400 (Aircobra) da USAAF começaram a operar a partir de Henderson Field no final de agosto de 1942. Seu desempenho como caça, estava muito aquém do esperado, principalmente diante do caça japonês Zero. A solução encontrada foi a mudança de papéis: os F4F - Wildcat dos US Marines passaram a atuar mais como caças, enquanto que os pilotos da USAAF aprenderam a bombardear e atacar o solo com seus P-400, papel este que em breve mostraria ser muito útil, quando fossem empregados em ações contra navios e em missões de apoio aéreo aproximado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Esta versatilidade foi reutilizada pelos aliados, durante a campanha das Ilhas Salomão, quando do emprego de bombardeiros leves e médios, enquanto que as B-17, com seu grande raio de ação, eram empregadas em missões de reconhecimento, a partir de Handerson Field. Essa foi uma tática empregada, de modo a manter os aliados permanentemente informados dos movimentos japoneses, permitindo ações defensivas, de modo a proteger Guadalcanal. Conforme os aliados avançavam pelas Ilhas Salomão e Nova Guiné, o poder aéreo aumentava a quantidade e o poder de suas aeronaves. Ataque a navios mercantes japoneses passou a ser realizado pelos bombardeiros B-25 e pelos A-20 e provou ser mortal para os nipônicos. Os B-25 e os A-20, foram equipados com metralhadoras extras, posicionadas no nariz das aeronaves, tornando-os muito aptos a esse tipo de missão, ao mesmo tempo em que a USAAF desenvolvia uma versão equipada com radar para o B-24, que podia atacar alvos, mesmo quando esses estivessem encobertos. Essa aeronaves foram empregadas pela primeira vez em agosto de 1943, no teatro de operações das Ilhas Salomão, contribuindo sobremaneira para a destruição de diversos navios inimigos. Em outubro de 1943, o inimigo não podia mais suportar as perdas navais sofridas.  Capazes de bombardear alvos terrestres utilizando armas com novas tecnologias (bombas de retardo lançadas de para-quedas), a versatilidade do poder aéreo aliado no sudoeste do Pacífico, tornava-se cada vez mais forte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A flexibilidade do poder aéreo foi a chave do sucesso da invasão das Ilhas Marianas. A operação começou com um maciço ataque de caças-bombardeiros operando a partir dos porta-aviões e logo o poder aéreo japonês estava reduzido a um terço de sua força e logo os americanos possuíam total controle dos céus. A superioridade aérea era vista agora como um pré-requisito essencial para realização de operações anfíbias. Subseqüentemente, antes do desembarque em Saipan, aeronaves operando a partir dos porta-aviões bombardearam a atacaram as posições defensivas japonesas e durante o desembarque propriamente dito, esses ataques foram combinados com salvas da artilharia naval, reduzindo dramaticamente a ferocidade das defesas japonesas. As aeronaves operaram também como gerenciadores de tiro, orientando o fogo naval para os alvos apropriados. Quando a IJN tentou deter a força de invasão, num esforço pesado, aconteceu a denominada “Mariana Turkey Shoot”, quando, aeronaves americanas, partindo dos porta aviões, bombardearam e destruíram aeronaves japonesas que haviam pousado em Guam. Sem a presença de forças aéreas inimigas, e com a variedade de missões a serem cumpridas, os campos de pouso de Saipan e das Marianas não teriam sido conquistados com poucas perdas humanas e materiais. A importância que a US Navy atribuiu ao poder aéreo nesta fase da guerra, pode ser avaliado pelo fato de que, não menos que 15 porta-aviões foram designados para essas operações.

 

 

A partir de novembro de 1944, até o final da guerra, operando de bases seguras nas Marianas, os bombardeiros B-29 da USAAF começaram a atacar sistematicamente a ilha principal japonesa, numa verdadeira exibição de flexibilidade do poder aéreo. Nenhuma outra força aérea possuía a capacidade de alcance ou a concentração de força para realizar tais operações, naquela fase da guerra. Em março de 1945, os B-29 começaram também a minar as águas territoriais japonesas, contribuindo assim para o bloqueio marítimo ao Japão. Embora essas operações não fossem consideradas estratégicas, tiveram apoio total por parte do General Curtis LeMay, pois ele as considerava uma demonstração de versatilidade do poder aéreo.

 

Com vastas distâncias separando as forças aliadas pelo teatro de guerra, e com a selva hostil servindo para isolar os combates terrestres, o ressuprimento das tropas passou a ser missão vital para o poder aéreo no Pacífico. A épica luta travada em Henderson Field – Guadalcanal, teria com toda certeza, sido perdida sem o ressuprimento aéreo. Através de Papua Nova Guiné, tropas aliadas enfrentaram uma difícil luta contra os japoneses, quando dirigiam-se para Port Moresby, mas foram suportadas, reequipadas e tiveram evacuação médica pelo poder aéreo. Um ano mais tarde, em setembro de 1943, os aliados realizaram um assalto aero-transportado contra Nadzab, na Nova Guiné, demonstrando a extensão do esforço aliado e a versatilidade do poder aéreo. Cerca de 300 aeronaves tomaram parte nesta ação, incluindo-se 96 aeronaves C-47, que transportaram os para-quedistas, os suprimentos e a artilharia.

 

 

 

Flexibilidade e versatilidade eram então atributos cruciais do poder aéreo, contribuindo enfaticamente à vitória na campanha de Pacífico.  O poder aéreo era vital neste teatro de operações, permitindo aos chefes Aliados manter a iniciativa e aplicar pressão constante nos japonês, ajudados pela habilidade dos recursos e pela facilidade do mesmo ser utilizado numa variedade de tarefas.

Finalmente, a habilidade individual de alguns chefes e dos aliados em geral, em inovar, improvisar e inventar soluções para maximizar a versatilidade desses recursos, provaram ser fator chave para o avanço em direção ao Japão.

 

O bombardeio estratégico do Japão

 

Os bombardeiros B-29 ficaram disponíveis para utilização operacional no final de 1943, mas o único local possível para operá-los contra o Japão, eram bases localizadas na China Central. Assim, sessenta e três B-29 realizaram um ataque contra usinas siderúrgicas localizadas em Kyushu, no dia 15 de junho de 1944, tornando-se o marco do início da campanha de bombardeio estratégico contra o Japão, atque este cujos resultados, de acordo com o United States STrategic Bombing Survey (USSBS - Pesquisa sobre os Bombardeios Estratégicos dos Estados Unidos), essas operações na foram decisivas. Problemas técnicos marcaram o início da vida operacional desta aeronave, juntamente com a inexperiência das tripulações e com as novas técnicas de bombardeio de alta altitude, principalmente pela influência dos fortes ventos encontrados. Os comandantes ainda não haviam ajustado o equilíbrio entre expectativa e realidade, e por isso continuavam a lutar entre si na escolha do alvo a ser atacado e do método a ser empregado – um enigma duradouro para os chefes do poder aéreo. O pior de tudo foi que a logística atrapalhou muito as operações a partir da China, resultando que, em média, cada aeronave só conseguia realizar uma missão por mês. Os atributos de Ritmo, Perseverança e Concentração de Esforços não puderam ser empregados. Os B-29 foram retirados da China em janeiro de 1945, passando a operar a partir da Marianas.

 

No início, apesar dos resultados ruins, a concepção estratégica de utilização dos B-29 a partir da marianas era poderosa e profética – os Estados Unidos estavam agora com capacidade de lançar ataques contra o Japão, e em particular contra Tóquio, com relativa impunidade. Conforme o número de B-29 aumentava, novas técnicas eram introduzidas, juntamente com as bombas incendiárias. Esta flexibilidade, tão crucial ao poder aéreo, proporcionou dramáticos resultados, ajudados também pelas construções japonesas, cujas casas eram basicamente construídas de madeira.  No ataque contra Tóquio, realizado no dia 10 de março de 1944, 63% da zona comercial da cidade e 18% da zona industrial foram destruídos, com 83 mil pessoas mortas e mais de 1 milhão sem teto. Até o final da guerra, os americanos praticamente destruíram 66 cidades japonesas. Em paralelo aos ataques com bombas incendiárias, ataques diurnos de precisão foram realizados contra alvos industriais, contra refinarias e contra objetivos de infraestrutura, desde que a meteorologia permitisse. Finalmente, não deve ser esquecido que o bombardeio foi complementado com bloqueio marítimo. Com a escassez de matéria prima produzida por esse bloqueio, a destruição industrial através dos bombardeios estratégicos foi ainda maior. As operações de minagem realizadas pelos B-29 durante o ano de 1945, simplesmente aumentou a aflição japonesa. Nos últimos 12 meses de guerra, 49,7% do total de perdas de navios mercantes japoneses foi devida a ataques de aviões e 12,7% às minas.

 

 

 

Os resultados do bombardeio ultrapassaram todas as expectativas – o poder aéreo sozinho tinha desferido um golpe devastador. A destruição industrial havia reduzido a produção da indústria aeronáutica em 57%, nos últimos 10 meses da guerra e absentismo dos trabalhadores estava entre 40% e 52% em julho de 1945. Esses resultados estavam sendo alcançados com taxas de perda  na ordem de 2%, e LeMay começou a acreditar que a invasão das Ilhas Japonesas poderia ser evitada – o poder aéreo poderia terminar a guerra em outubro daquele ano. O USSBS apóia crença desta visão e declara em seu relatório: A ofensiva de bombardeio era o fator principal que garantiu o acordo de rendição incondicional sem uma invasão das ilhas japonesas… A bomba atômica e a entrada de Rússia na guerra aceleraram o processo de rendição percebido como o único possível resultado. 

As bombas atômicas lançadas contra o Japão, causaram menos dano que a campanha de bombardeio estratégico até então realizada. Porém, o terror japonês, originado do fato que uma única aeronave foi necessária para causar tal destruição,  não tinham nenhuma idéia quanta destruição a mais sofreriam se continuassem a guerra. Juntamente com a invasão russa na Manchuria e na Coréia, os japoneses se renderam no dia 8 de agosto de 1945, apesar da presença de 2.5 milhões de soldados nas ilhas japonesas e de 9 mil aeronaves  Kamikaze disponível. 

 

Conclusões

 

O Poder Aéreo teve papel decisivo no resultado da Campanha do Pacífico na 2ª Guerra Mundial, principalmente por ser uma força multiplicadora do poder aliado. Tanto do ponto de vista tático como do estratégico, o poder aéreo foi o grande impulsionador do avanço dos aliados até o Japão.

 

Com o auxílio do poder aéreo, o princípio da surpresa rendeu resultados espetaculares, desde Pearl Harbor, passando por Midway até o final da guerra, sempre mostrando sua importância estratégica. O Poder aéreo pode empregar suas qualidades de velocidade, alcance e concentração de força, sem as quais não teria sido possível a vitória final. Dia após dia, as aeronaves aliadas varriam o Pacífico Sul, procurando e atacando os japoneses, no mar, na terra e no ar. As forças de superfície mostraram-se muito vulneráveis e foi o poder aéreo que continuamente empurrava os inimigos. Quando o bombardeio do Japão começou, foi o poder aéreo com sua concentração de poder que rendeu os resultados alcançados.

 

O raio de ação do poder aéreo, tanto do ponto de vista tático como estratégico, foi atributo chave para o sucesso alcançado pelo poder aéreo. Do o ataque a aeronave de Yamamoto, passando pela campanha de bombardeio dos B-29, o alcance do poder aéreo provou ser crucial, permitindo também os ataques pré-desembarques e as operações de bloqueio e de minagem dos portos japoneses. Os submarinos também tiveram papel importante na campanha do Pacífico, mas tiveram que se apoiar no poder aéreo para realizarem suas missões. Podemos então dizer que foi o bloqueio naval e o poder aéreo que derrotaram o Japão. A captura das Ilhas Marianas só foi possível por causa do poder aéreo e foi dessas ilhas que o bombardeio estratégico ao Japão passou a acontecer.

 

Finalmente, foi a flexibilidade e versatilidade do poder aéreo, juntamente com a aplicação de tecnologia, que forneceu aos aliados o poder vital na Campanha do Pacífico. Inovador e agressivo, o espírito lutador do aviador no Pacífico, que inicialmente, mesmo com um equipamento inferior lutou com bravura e tenacidade, sempre procurando a vitória. O japonês nunca conseguiu descansar. A habilidade do poder aéreo de operar em todos os níveis da guerra, desde o tático até o estratégico foi o que fez a diferença. A perspectiva conservadora do poder aéreo japonês, com seu lento avanço tecnológico, sua falta de visão estratégica e seu apego aos princípios do Bushido, significou a perda da corrida tecnológica japonesa. Apoiado pelo poder econômico, a aviação aliada dominou os céus do Pacífico e do Japão, na fase final da guerra.  Flexibilidade e versatilidade são atributos únicos do poder aéreo, e no Pacífico foram qualidades dominantes que fizeram a diferença. Deve também ser reconhecida a onipresença do poder aéreo com sua maior força – a habilidade de operar de modo disciplinado e com a tecnologia sendo seu escudo protetor. Nossa compreensão e aplicação hoje, dos princípios duradouros de poder aéreo, devem muito à coragem e ao espírito lutador e inovador dos pilotos e chefes aliados durante a Campanha do Pacífico.