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O Seiran, uma arma secreta da Marinha Japonesa

Logo após o ataque a Pearl Harbour, no dia 7 de dezembro de 1941, o Almirante Isoroku Yamamoto supremo comandante da Frota Combinada da Imperial Marinha Japonesa e mentor daquele ataque estratégico, se reuniu com seu Estado Maior para planejar as próximas ações.

O Japão deve colocar as mãos no território americano, dizia ele, e completava afirmando que nada mais lógico do que a utilização do que ele denominava de submarino-porta-aviões. Assim sendo, um mês depois, no dia 13 de janeiro de 1942, o Kansei Honbu (Quartel General do Comando de Navios) recebia uma solicitação do Gunreibu (Comando de Operações Navais) de estudar a possibilidade de se projetar um submarino com raio de ação de 40 mil milhas náuticas e capacidade de carregar uma aeronave de ataque carregada com torpedo ou 800 kg de bombas.

Quando Yamamoto recebeu a incumbência de executar o planejamento de uma guerra contra potências navais poderosas como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, ele considerou a tarefa impossível. Mesmo assim, ele tinha esperança de alcançar uma grande vitória em Pearl Harbor e conseguir uma supremacia bélica, mesmo sabendo que o Japão teria pela frente uma longa e desgastante guerra. Yamamoto sabia que teria de obter uma outra vitória tática, se desejasse obter a vitória final ou pelo menos uma trégua vantajosa. A utilização de aeronaves embarcadas em submarinos, para missões de reconhecimento clandestino e de ataque contra navios inimigos, já fora testada há alguns anos, desde a 1ª Guerra Mundial, mas o conceito de Yamamoto de se utilizar a furtividade do submarino em lançar ataques aéreos contra alvos estratégicos era uma inovação.

            

Inicialmente os planos de Yamamoto eram para ataques a cidades como New York ou Washington D.C., mas entretanto, com o andamento do planejamento, a Marinha Japonesa voltou-se para um alvo mais pragmático: o Canal do Panamá, onde um único ataque bem sucedido, poderia impedir que a Frota Americana do Atlântico pudesse ser deslocada para o Pacífico. A idéia era que as aeronaves decolariam dos submarinos do Golfo do Panamá, cruzariam o país voando a baixa altitude e atacariam a Comporta de Gatun, voando de leste para oeste, pegando de surpresa as defesas americanas.

Deste modo, no início de 1942, a Divisão de Submarinos do Quartel General do Comando de Navios e o Escritório Técnico de Aviões do Quartel General do Comando Aéreo (Kugisho)começaram a trabalhar no submarino-porta-aviões e numa aeronave de ataque que pudesse ser transportada e lançada desse submarino. Foram desenvolvidos dois modelos de submarinos, chamados de sen-toku, ou submarinos especiais: um, da classe I-13, que deslocava 3.603 toneladas quando na superfície e com raio de ação de 21 mil milhas náuticas; e outro maior, da classe I-400, com 400 pés de comprimento, deslocando 5.223 toneladas quando na superfície e com raio de ação de 37.5 mil milhas náuticas. Ambos podiam transportar duas aeronaves em um tipo de hangar sob o casco, mas o I-400 foi modificado para transportar uma terceira aeronave.

A aeronave que seria utilizada foi designada de M61A1, e chamada deSeiran (que significa “tempestade que vem do céu claro”). O projeto e construção foram entregues pelo Kugisho no dia 15 de maio de 1942 à empresa Aichi Kouku de Nagoya, que já havia construído diversos hidro-aviões para a Marinha Japonesa. O Projeto Básico consumiu todo o ano de 1942, e o primeiro protótipo ficou pronto em Novembro de 1943, seguido por outras sete aeronaves. Durante o ano de 1944, testes foram realizados pelo Kugisho em Yokosuka, e modificações realizadas. Em Janeiro de 1945, a aeronave estava pronta para uso operacional.

A liderança do projeto ficou a cargo do engenheiro Toshio Ozaki, e o piloto de testes foi o Tenente Tadashi Funada. Os esforços resultaram em uma aeronave grande, com alto desempenho e que podia se condicionada dentro de um submarino. A parte crítica da operação era o lançamento da aeronave, pois o submarino devia permanecer o menor tempo possível na superfície bem como a limitação de espaço para a equipe de apoio, o que resultou num alto grau de automação e de inovação de engenharia.

Ozaki informou que a aeronave fora concebida originariamente sem trem de pouso, de modo a obter maior velocidade e raio de ação possível. Após a missão, a tripulação voaria de volta ao submarino, faria uma amerrisagem e seria recolhida pelo submarino. Estudos entretanto, levaram a introdução de um par de flutuadores, baseados na premissa que a aeronave poderia atacar diversos alvos secundários, antes de realizar sua missão final. E mais, a presença de flutuadores permitiria o treinamento das tripulações, sem a perda da aeronave. Os submarinos eram equipados com guinchos, de modo a recuperar as aeronaves após a amerrisagem. A possibilidade de ejeção dos flutuadores após a decolagem foi considerada, mas nunca implantada.

Dois protótipos foram construídos com trens de pouso acionados manualmente, e utilizados na obtenção de parâmetros de vôo sem os flutuadores e em treinamento de tripulações contra um modelo do Canal do Panamá. Foram denominados de Nanzan, para distingui-los das versões com flutuadores. As inovações de projeto utilizadas no Aichi M6A1 fizeram-no uma das mais avançadas e complexas aeronaves japonesas da guerra, embora muito pouco conhecida pela inteligência aliada. O projeto foi classificado como altamente secreto e muito bem camuflado. Os protótipos foram construídos num anexo em separado na fábrica da Aichi em Eitoku e o treinamento foi realizado em bases secretas.

Um relatório da inteligência aliada de 1944, de apenas meia página, fazia menção a uma aeronave capaz de voar a 330 milhas por hora, com características não-usuais de projeto e capaz de ser utilizada em submarinos, mas não tinha a menor idéia qual era sua verdadeira finalidade.

Além de seu grande raio de ação, a aeronave possuía alta velocidade, pois escapar dos caças inimigos era uma fator crítico de sucesso da missão. Sem flutuadores, sua velocidade máxima era de 348 milhas por hora, que é comparável a velocidade máxima do Grumman F6F Hellcat. Mesmo com flutuadores, o Seiran atingia a velocidade de 295 milhas por hora a uma altitude de 17 mil pés, embora não fosse capaz de se desvencilhar de uma caça clássico.

O motor Atsuta era do tipo 31 ou 32, refrigerado a água, com 12 cilindros invertidos em V, atingindo 1.400 hp, fabricado pela Aichi e baseado no motor alemão Daimler-Benz DB601A. A hélice, baseada em uma Hamilton Standard, era quase do tamanho do espaço disponível dentro do submarino. O submarino possuía facilidades para pré-aquecer os lubrificantes e o líquido de resfriamento, sem ter que ligar o motor do avião, bombeando-os para dentro da aeronave, minutos antes do lançamento. A opção por um motor refrigerado à água, favoreceu muito a aerodinâmica da aeronave e permitiu a utilização mais favorável de um longo torpedo. O motor com 12 cilindros invertidos em V, permitiu que a hélice girasse bem à frente da cabeça do torpedo, favorecendo o lançamento do mesmo.

O problema seguinte foi a colocação do avião dentro do submarino com um diâmetro de 11,5 pés. A solução encontrada foi a rotação da asa para frente num ângulo de 90°, em torno da raiz da mesma, e depois dobrando-a para trás, ao longo da fuselagem. O reposicionamento da mesma e a conexão de todos os controles de vôo e linhas de combustíveis deveria ser feito em alguns segundos, dentro dos três ou quatro minutos de preparação para o lançamento da aeronave. Essa operação seria feita por quatro especialistas posicionados no convés do submarino, e normalmente á noite. O mecanismo hidráulico de dobrar a asa era assistido por equipamento montado no hangar, ou seja, a equipe de apoio introduziria um mangueira hidráulica em um acesso apropriado localizado na fuselagem junto a asa e assim reposicionava-a. Todas as conexões eram também automaticamente ligadas por esse sistema. O único trabalho realmente manual era a colocação de pinos de segurança, dois em cada asas. A operação era dita concluída, quando esses tripulantes, levantavam suas mãos, que estavam pintadas de tinta vermelho fluorescente.

A ponta da empenagem e dos profundores eram dobrados e ajustados em seus devidos lugares. Os flutuadores, se fossem utilizados, eram removidos de armários laterais localizados nos hangares, e posicionados enquanto a aeronave era erguida. Sua fixação se dava por meio de quatro pinos de ajuste rápido. O projeto baseado em equipamentos dobrados continuava dentro da aeronave. A metralhadora de 13 mm, colocada no assento do navegador, era montada de cabeça para baixo, sendo rodada e posicionada corretamente quando da decolagem.

Como a aeronave podia ser também utilizada como bombardeiro de mergulho, ele era equipado com freio aerodinâmico. A equipe de Ozaki empregou um sistema duplo, que combinava flap com freio de mergulho, já anteriormente bem sucedido no bombardeiro de ataque B7A2 Ryusei “Grace”. Ao ser totalmente abaixado, o sistema permitia uma velocidade de pouso de 78 milhas por hora; ao ser parcialmente abaixado, funcionava como freio de mergulho, permitindo mergulhos praticamente verticais. O piloto selecionava flap ou freio de mergulho, diretamente de seu manche.

Em sua missão final, os japoneses empregariam suas maiores armas – ou seja, a bomba de penetração de 1.764 libras ou o torpedo de 1.808 libras. A missão do tripulante adicional era a navegação. Ele era também artilheiro e sentava numa cadeira que podia ser colocada voltada para frente ou para trás. Seu painel era equipado com instrumentos de navegação e de comunicação modernos e quase inexistentes nos demais aviões japoneses.

A bordo do submarino, a aeronave era amarrada por quatro pontos e montada sobre um carrinho que se deslocava até a catapulta. Esta, possuia 69 pés de comprimento, e o carrinho se separava da aeronave quando alçava vôo. O carrinho e o trilho da catapulta formavam um ângulo tal, que a aeronave estava com o nariz para cima, aumentando o ângulo de ataque e permitindo o vôo à baixa velocidade de lançamento. Mesmo com flutuadores, o sistema de lançamento era o mesmo, pois havia espaço lateral suficiente para eles.

Enquanto o projeto inicial envolveu apenas a adaptação de flutuadores ejetáveis, um problema maior surgiu como conseqüência do desenvolvimento do mesmo. Tanto o chefe dos pilotos de teste como seu assistente, eram treinados e experientes em missões de reconhecimento com hidro-aviões, não em bombardeios, assim como o Tenente Asamura e os demais pilotos designados para as operações. A pouca experiência deles com o emprego de hidro-aviões em missões de bombardeios ou de torpedeamento, e o pouco tempo para treinamento, os levou a abortar a utilização desses últimos. E mais, durante o treinamento e no planejamento das futuras missões, seria utilizado um mergulho raso de modo a se obter uma melhor precisão de ataque, tendo em vista a pouca experiência dos pilotos. Isto era irônico, tendo em vista que o Seiran era uma das poucas aeronaves projetadas para ataques tanto como bombardeiro de mergulho ou como torpedeiro.

A guerra no Pacífico desenvolveu-se do modo sombrio que Yamamoto preverá e tinha receio: Era um desafio de desejo nacional, potência militar e principalmente, capacidade industrial, este último, um ponto crítico para o Japão. O Teatro de Operações Bélicas logo ficou restrito as ilhas à sudoeste do Pacífico, e cada vez mais próximo a ilha principal do Japão. Para piorar o moral, o Almirante Yamamoto foi morto, quando a aeronave em que voava foi abatida por caças P-38 americanos. Com a perda deste brilhante estrategista, a Imperial Marinha Japonesa perdia sua visão de alcançar o continente americano, mas uma rápida mudança da situação da guerra podia ainda render alguns frutos.

Em 1944, a produção industrial japonesa estava uma catástrofe. Os japoneses lutavam para defender o que restava de suas conquistas. Desempenho e rapidez eram as palavras chaves na engenharia militar e industrial, e mesmo assim a Aichi Aircraft Company, sob os olhos atentos do Kugisho, produzia o Seiran número 28. Quatro submarinos I-400 estavam sendo construídos. Os I-400 e I-401 entraram em serviço com aviões; oI-402 foi convertido em submarino de apoio e o I-403 foi destruído quando ainda estava no estaleiro.

No dia 15 de dezembro de 1944, foi criado o Esquadrão Aéreo Nº 631 e em 30 de dezembro o Esquadrão de Submarinos Nº1. Essas unidades seriam empregadas na Força de Ataque Especial que atacaria o Canal do Panamá. Mas, conforme as forças americanas se aproximavam cada vez mais do Japão, os estrategistas começaram a abandonar a idéia do ataque ao canal, voltando-se para uma missão mais essencial, qual seja, atacar a Força Naval Americana que estaria preparando-se para invadir o Japão. A Inteligência japonesa escolheu o Atol de Ulithi, a oeste das Ilhas Marianas como sendo o novo alvo. A idéia não foi bem recebida pelos seguidores tradicionalistas de Yamamoto, em particular pelo Capitão Ryunosuke Ariizumi, que como analista do Comando de Operações Navais, havia apoiado a idéia original de Yamamoto e fora designado Comandante do Esquadrão de Submarinos Nº 1 e comandante geral de toda força de ataque – a sen-toku. Ariizumi argumentou veementemente contra a mudança, pois agora tudo havia se transformado em uma aplicação tática, mas seus apelos foram em vão. O alvo da sen-toku mudou oficialmente, do Canal do Panamá para o Atol de Ulithi, em 25 de junho de 1945, quando as ordens foram oficialmente enviadas para as unidades em treinamento e elas retornaram ao porto de origem.

A Operação Ulithi era composta de dois elementos. O primeiro, a Operação Hikari (Luz), composta dos submarinos I-13 e I-14, que transportariam duas aeronaves de reconhecimento Saiun (Nakajima C6N1) até Truk, a cerca de 900 milhas a leste de Ulithi, nas Ilhas Carolinas, de onde fariam missões de reconhecimento, para detectar a presença da frota americana. Os Saiun eram aviões de alta velocidade, que operavam a alta altitude e com enorme raio de ação. Os dois submarinos zarparam de Maizuru no dia 2 de julho, sendo que o I-13 foi dado como desaparecido, e mais tarde confirmado como afundado por um destróier americano.

O segundo elemento, a Operação Arashi (Tempestade), era a verdadeira missão dos Seiran, pois atacariam a Frota Americana em um local onde não se esperava a existência de forças japonesas. Seis aeronaves, três no I-401 e três no I-400, constituiriam a força de ataque.

Aconteceu uma cerimônia de adeus no dia 19 de julho, em Maizuru, uma típica solenidade que tornara-se muito freqüente nas bases navais e aéreas japonesa naqueles tempos – a dos Tokko Tai (Corpo de taque Especial, ou Kamikases. Cada um dos 12 tripulantes recebeu um sabre de madeira, típico dos Samurais, como símbolo do sucesso da última e mais honrosa missão. Os sabres foram enviados pessoalmente pelo Comandante em Chefe da 6ª Frota e entregues a cada tripulante por Arrizumi. Esse presente expressava a expectativa de que cada Samurai não hesitaria em lançar sua aeronave contra o alvo inimigo de modo a garantir o sucesso da missão e defender a terra de seus ancestrais contra o invasor. O último porto japonês a ser visitado pelos submarinos foi o de Ominato, ao norte da Ilha de Honshu.

No dia 15 de agosto de 1945, quando os submarinos dirigiam-se para o ponto de encontro, o Imperador Hirohito anunciava a rendição japonesa às forças aliadas. Os submarinos receberam ordens de jogarem fora todo seu armamento, retornarem a seus portos de origem navegando pela superfície e ostentendo uma bandeira triangular negra, conforme o acordo de rendição. Os Seiran simplesmente foram jogados ao mar e o Capitão  Arrizumi se matou, em sua cabine de comando, observando uma tradição frente à desonra da rendição. Os submarinos foram mais tarde levados por tripulações americanas até Pearl Harbor, onde foram examinados por técnicos e posteriormente afundados. O modelo de submarino I-400 foi o maior do mundo até que os americanos lançaram em 1959 o USS Triton.

Com a caótica rendição japonesa, muitos equipamentos militares foram embarcados para os Estados Unidos, para serem examinados por técnicos, e entre esses equipamento encontrava-se um modelo do Seiran (a aeronave nº 28), que acabou sendo restaurada pelo National Air and Space Museum em Washington D.C.

Dados do Aichi M6A1

com flutuadores

Comprimento

38 pés e 2,25 polegadas

Envergadura

40 pés e 2,25 polegadas

Altura

15 pés e 0,31 polegadas

Velocidade Máxima

295 mph @ 17.000 pés

Raio de Ação

739 milhas

Motor

Aichi AE1P Atsuta 31, com 1.400 hp

 

Dados do Submarino I-400 Classe Sen-Toku

Comprimento

400 pés e 3 polegadas

Largura

39 pés e 4 polegadas

Deslocamento Máximo

5.223 toneladas

Velocidade Máxima (Superfície)

19 nós (22 mph)

Raio de Ação (Superfície)

37.500 milhas náuticas





O posto de pilotagem do Seiran

O posto do navegador / artilheiro do Seiran


 

Um Seiran em fase de construção

 

Desenho do sistema de dobra da asa

Técnicos americanos inspecionam um submarino Sen-Toku


 

O sistema de amarragem do Seiran dentro do submarino