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Spitfires para Malta

A saga inglesa para abastecer
o último baluarte do Mediterrâneo

No começo do ano de 1942, a ilha de Malta representava o último bastião estratégico para as intenções britânicas no Mediterrâneo, pois a partir dali aviões bombardeiros e torpedeiros poderiam atacar qualquer navio do Eixo que tentasse navegar naquelas águas e principalmente aqueles que transportavam suprimentos e reforços para as tropas alemãs e italianas que lutavam na África do Norte. Contudo a capacidade dessas aeronaves dependia primordialmente da eficiência da defesa aérea da ilha, e naquele estágio da guerra, a única aeronave de caça disponível em Malta era os Hawker Hurricanes, os quais estavam sendo completamente batidos pelos Messerschmitts Bf-109F da Luftwaffe.

Spitfires VB a bordo do Eagle, no dia 21 de março de 1942, durante a
Operação PICKLET I. Ao fundo o Argus e um destroier da escolta.

Nessa época, o Alto Comando Alemão havia planejado um ataque coordenado por forças aerotransportadas e pelo mar, de modo a conquistar Malta, e como parte desse plano havia colocado mais de 400 aeronaves na ilha da Sicília e no sul da Itália, ao mesmo tempo intensificando os ataques à ilha, buscando obter superioridade aérea quase total.

Para sua sobrevivência, Malta necessitava de um avião de caça mais eficiente do que os Hurricanes, e o único disponível era o Supermarine Spitfire. Entretanto, transporta-los para lá não era tarefa fácil, visto que a base inglesa mais próxima era Gibraltar, que ficava à 1.100 milhas náuticas (1.980 km) de distância, muito além do raio de alcance dos Spitfires, mesmo com tanques suplementares. Por outro lado, as forças navais do Eixo no Mediterrâneo não eram fortes o que permitia a possibilidade de se enviar os caças pelo mar. Desde o final do ano de 1940, mais de 300 Hurricanes haviam sido transportados para Malta, por meio de operações navais com porta-aviões, tendo cada avião, sido equipado com dois tanques suplementares de combustível (cada tanque com 44 galões).

Até aquele período da guerra, os Spitfires só haviam sido utilizados na Inglaterra, e para poderem operar de aeroportos poeirentos como os de Malta, era necessário a colocação de um filtro de poeira na tomada de ar dos carburadores, senão os motores Merlim teriam vida curtíssima. A companhia Vokes, rapidamente projetou o filtro, modificando radicalmente o perfil fino e liso do avião, que passou a ter o que os ingleses denominavam "uma barba". Para permitir que os Spitfires alcançassem Malta, mesmo decolando de porta-aviões a uma distância segura da ilha, foi projetado um tanque ejetável com capacidade para 90 galões, a ser instalado sob a fuselagem. As modificações foram testadas e aprovadas.

Desenho mostrando o perfil modificado do Spitfire VB.

Vinte e seis Spitfires V foram modificados para operação em Malta. O filtro de ar, um novo radiador e um maior tanque de óleo foram instalados, além de uma nova pintura da fuselagem adaptada às operações naquela região. No começo de fevereiro de 1942, a primeira leva de Spitfire VB (tropicalizados) estava pronta para ser despachada para Malta. Uma operação secreta denominada Spotter foi desencadeada. Dezesseis aeronaves foram colocadas à bordo do transporte Cape Hawk em Liverpool, juntamente com 16 pilotos e cerca de 100 mecânicos e auxiliares.

O navio zarpou no dia 9 de fevereiro, fazendo parte de um comboio, chegando a Gibraltar 12 dias depois. Ao chegar, o barco foi estrategicamente colocado ao lado do porta-aviões Eagle, e os caixotes não-identificados contendo as partes dos aviões foram desembarcados e colocados em um armazém especial. Para manter o segredo da operação, as caixas permaneciam fechadas durante o dia, de modo a evitar os olhares dos trabalhadores espanhóis, que diariamente cruzavam a fronteira para trabalhar no porto, pois com certeza, qualquer anormalidade seria rapidamente comunicada à Inteligência Alemã, cujos integrantes mantinham uma vigilância total sobre Gibraltar à partir da cidade de Algeciras, do outro lado da baía.

Na noite de 22 de fevereiro, a primeira caixa foi aberta. O porto permanecia iluminado, pois não havia alerta de ataque, e assim os mecânicos da RAF puderam começar a montagem dos aviões. Conforme iam ficando prontos, eram empurrados para o costado do Eagle e içados por guindastes e colocados no porão. Na hora desta operação, as luzes desta parte do deck permaneciam apagadas, evitando assim os olhares dos alemães, e ao mesmo tempo na outra extremidade, alguns Sea Hurricanes faziam teste de motor, com total iluminação !!! Durante aquela noite, seis aeronaves foram montadas e colocadas no Eagle. Os ajustes e instalações finais eram feitos dentro do porão do navio. No dia 25, todos os aviões estavam prontos e embarcados.

O Sqn Ldr Hughes, chefe da manutenção, dividiu seus homens em oito turmas, de modo que cada uma responsabilizava-se por duas aeronaves. Todo o pessoal era proveniente de unidades de manutenção e muito experientes. Embora fossem aeronaves totalmente novas, algumas peças apresentaram defeitos, e assim sendo foi necessário "canibalizar" um dos aviões para que pudessem ser montados os demais. Juntas selantes tiveram que ser feitas ou refeitas, sistemas hidráulicos e de ar completados e controles conectados e ajustados. Até mesmo ferramentas especais para montagem das hélices tiveram que ser fabricadas. A única operação nova para os mecânicos foi a instalação do tanque suplementar de combustível. Por absoluta falta de experiência e de instruções adequadas, o sistema auxiliar não funcionava adequadamente, toda vez que se trocava a chave de combustível, do tanque principal para o auxiliar. Os mecânicos tinham então que desmontar e montar novamente o sistema. Após o teste de motor, as aeronaves iam para os armeiros, que calibravam as metralhadoras, com o avião em atitude de vôo, mas os tanque auxiliares continuavam a dar problemas.

Nas primeira horas do dia 27 de fevereiro, o Eagle zarpou de Gibraltar escoltado por um outro porta-aviões, o Argus, por um encouraçado, um cruzador e nove destróiers. Entretanto essa primeira tentativa de se levar Spitfires para Malta terminou em fracasso, pois o problema com os tanques suplementares de combustível não conseguiu ser resolvido, devido a um vazamento no selo da tubulação que ligava esse tanque ao sistema principal de combustível das aeronaves. O Sqn Ldr Hughes, enviou uma mensagem ao Almirantado, dizendo que não permitiria a decolagem dos Spitfires naquelas condições, e que seus homens haviam trabalhado vinte horas seguidas e precisavam de descanso. O Almirantado enviou uma mensagem, dizendo que os navios não poderiam ficar navegando pelo Mediterrâneo com aquela preciosa carga e que os aviões teriam que decolar de qualquer maneira no dia seguinte pela manhã. Mas Hughes foi inflexível. As aeronaves não estavam em condições de vôo, em seu ponto de vista, e ele não permitiria que elas decolassem, enquanto não tivesse plena certeza de total e perfeito funcionamento do sistema auxiliar de combustível. O Almirantado teve que aceitar as ponderações, e a esquadra deu meia volta retornandoà Gibraltar.

Uma vez em Gibraltar, todas as atividades concentraram-se em fazer com que o sistema auxiliar de combustível funcionasse. Um engenheiro da Supermarine Company, chegou à Gibraltar, e rapidamente foi verificado o que havia acontecido. O problema com o selo da tubulação existia, mas a causa principal era que internamente o tanque auxiliar possuía uma protuberância, sobre a qual a tubulação de combustível deveria ser instalada, e na ânsia de instalar os tanques, esse pequeno detalhe havia passado despercebido, causando todo o problema.

Um Spitfire decolando do Eagle. Observa-se o deck de vôo bastante molhado

Na manhã do dia 5 de março, o Eagle e sua proteção zarparam. Uma vez em alto mar, os Spitfires foram colocados no deck e os motores testados. Dessa vez tudo correu sem problemas e os tanques auxiliares funcionaram perfeitamente. Dois dias depois, o Eagle chegou à posição de lançamento e se posicionou contra o vento, para lançar as aeronaves. Stanley Grant foi o primeiro a decolar, seguido pelos outros 14 a intervalos programados. Ao mesmo tempo, um bombardeiro Blenheim apareceu nos céus para guiar os Spitfires até Malta.

A operação foi um sucesso, já que nenhum dos aviões se perdeu, posto que nenhum dos pilotos jamais decolara antes de um porta-aviões; os aviões não foram testados previamente em vôo, a distância a ser percorrida era de 660 milhas (equivalente a distância entre Londres e Praga), as bússolas dos aviões não puderam ser calibradas à bordo do Eagle pois não havia área livre de interferências magnéticas (por isso a necessidade do Blenheim para guiá-los). No dia seguinte os pilotos já entraram em ação.

Durante o mês de março, o Eagle fez mais duas viagens levando um total de 31 Spitfires. Após essas primeiras operações, não existia mais segredo, e assim sendo, as aeronaves puderam ser montadas tranqüilamente ao ar livre em Gibraltar, tendo suas bússolas calibradas e realizando vôo de teste, antes de serem embarcadas no porta-aviões.

Mas as operações aéreas em Malta continuavam em grande escala, e os Spitfires enviados ainda eram pouco para as necessidades. A situação da defesa aérea se deteriorava rapidamente, e a 1 de abril, o Primeiro Ministro Winston Churchill mandou um telegrama pessoal ao então Presidente dos Estados Unidos, F.D. Roosevelt, nos seguintes termos:

- Ataques aéreos à Malta intensos. Existem agora na Sicília 400 caças alemãs e 200 caças italianos. Malta só tem disponível de 20 a 30 caças. Temos mantido o suprimento de Spitfires à Malta, utilizando o porta-aviões Eagle, que consegue enviar 16 aeronaves por vez, lançando-os a uma distância de 600 milhas da ilha.

As operações têm funcionado adequadamente, mas agora o Eagle precisa ficar um mês no estaleiro para reparos no leme. Não existem Spitfires no Egito. O outro porta-aviões que temos disponível, o Argus, é pequeno, lento e necessário para fornecer proteção aérea quando das operações. Assim sendo, ficaremos um mês inteiro sem poder enviar algum Spitfire para Malta.

Gostaríamos pois de sua autorização para utilizarmos o porta-aviões Wasp em uma dessas missões, desde que os detalhes possam ser acertados entre a Royal Navy e a US Navy. Estimamos que, por suas dimensões, o Wasp tenha capacidade de carregar 50 ou mais Spitfires. A menos , se necessário for um reabastecimento, o Wasp poderia penetrar no Estreito de Gilbratar à noite, sem contactar a base até o retorno da missão, enquanto que os Spitfires seriam embarcados em Glasgow.

Como não poderemos enviar outros reforços para Malta no mês de abril, faz-se necessário que uma força poderosa de Spitfires possa ser enviada de uma só vez, de modo a tentarmos infringir aos inimigos o maior dano possível. A operação deverá ser realizada na terceira semana de abril.

Três dias depois, o Presidente dos Estados Unidos concordou com a utilização do porta-aviões Wasp e seis dias depois, ele já estava ancorado em Glasgow, pronto para receber 47 aeronaves dos Esquadrões 601 e 603. Pouco antes de chegar à Glasgow, os aviões bombardeiros e torpedeiros do Wasp decolaram e foram para uma base inglesa na Escócia, de modo a fornecer espaço para os Spitfires, entretanto um esquadrão de caças Grumman Wildcat foi mantido para auto-proteção.

Enquanto isso, os Spitfires destinados à Malta estavam voando para Abbotsinch, aeródromo à oeste de Glasgow: eram novos Spitfires VC tropicalisados, com um tanque extra de 90 galões e com quatro canhões de 20 mm. Após pousarem, cada aeronave tinha seu tanque drenado e a ponta da asa removida para fornecer melhor espaço no porta-aviões. Em seguida eram transportados por terra até o porto, onde embarcavam no Wasp.

Spitfire sendo embarcado no Wasp. Ao fundo os Wildcats.

Na tarde do dia 12 de Abril, os 47 Spitfires estavam embarcados nos porões do Wasp. Alguns deles, tiveram que ficar suspensos, de modo a permitir acomodação de outros. Na manhã seguinte, o porta-aviões zarpou, acompanhado pela escolta. Na noite de 18 para 19 de Abril, passou pelo Estreito de Gibraltar, e se dirigiu à costa da Argélia, de onde os aviões seriam lançados. Os primeiros 12 Spitfires foram içados ao deck de vôo, deixando espaço para aqueles que estavam suspensos. Todos fizeram um check de pré-vôo, e como o peso era um parâmetro muito importante para a decolagem, apenas dois canhões estavam municiados, cada um com 60 projetis (menos da metade da capacidade normal) e os outros dois estavam sem munição. Cada piloto só podia levar 10 lb (4,5 kg) de pertences pessoais.

Durante as operações de lançamento, os porta-aviões necessitam navegar em linha reta contra o vento, em região infestada de aviões inimigos, e era necessário que esta fosse realizada o mais rapidamente possível. Os Wildcats decolaram antes, de modo a fornecer uma proteção contra possíveis ataques. Em seguida, decolariam os Spitfires que se encontravam no deck de vôo. Quando o último desses decolasse, já seria içado um dos outros colocados no hangar, que já estaria com o motor aquecido e pronto para ser lançado. E assim seria realizada a operação, minimizando o tempo ao máximo. Era primordial que todos os aviões estivessem com o passo da hélice na posição correta (fine pitch) e para issso o Wg Cdr Mc Lean, verificava pessoalmente cada nacele antes de dar permissão para decolagem.

Imagens do hangar do Wasp, quando da Operação Bowery.

Quarenta e seis dos quarenta e sete Spitfires lançados, chegaram à Malta. O nível de engajamento em combate era tanto, que em poucos dias a maioria dessas aeronaves já fora destruída no ar ou no solo.

Mais uma vez Malta estava em apuros e novamente Churchill recorreu ao Presidente dos Estados Unidos para utilizar o Wasp de novo. A Operação Bowery seria a maior de todas, com o Wasp levando 47 Spitfires e o Eagle, que já estava reparado outros 17. As duas belonaves entraram no Mediterrâneo no dia 9 de maio, lançando seus 64 Spitfires, e pela primeira vez, houve um acidente na decolagem, quando um dos aviões caiu no mar tendo seu piloto falecido. Um outro Spitfire, não conseguiu fazer com que seu sistema auxiliar de combustível funcionasse, tendo o piloto aguardado que todos os outros aviões decolassem e retornou realizizando o que seria o primeiro pouso de um Spitfire em um porta-aviões. O interessante neste fato é que o avião não estava equipado com gancho para pouso embarcado, mas mesmo assim a perícia do piloto, fez com que o pouso trancorresse sem maiores incidentes, a par da surpresa.

Spitfire preparando-se para decolar do Wasp no dia 20 de abril de 1942,
durante a Operação Calendar.

Sessenta dos sessenta e quatro Spitfires chegaram à Malta, o que foi suficiente para mudar o rumo da batalha. Daquele ponto em diante, os pequenos porta-aviões da Royal Navy seriam suficientes para manter o suprimento das defesas aéreas da ilha.

O Eagle realizou mais cinco missões durante os messes de maio, junho e julho de 1942. A Luftwaffe passou então a tentar interceptar as aeronaves que eram lançadas, mas apenas em uma ocasião, no dia 3 de junho, Messerchmitts Bf-109 baseados em Pantelleira (ilha ao sul da Sicília, meio caminho entre a Itália e a Tunísia) conseguiram seu intento, derrubando quatro dos 31 Spitfires. A partir de agosto, o velho porta-aviões Furious passou a fazer o ressuprimento, tendo realizado duas operações em agosto e uma em outubro.

A última operação envolvendo o resuprimento por porta-aviões, aconteceu no dia 24 de outubro, pelo Furious. Nessa época, Malta contava com 123 Spitfires, dos quais 80 estavam em condições de combate, e eram suficientes para conter os ataques alemães. Enquanto isso, estava sendo desenvolvido o Spitfire VC BR202, com um tanque extra de 170 galões, mais um tanque interno de 29 galões e um tanque de óleo maior, e que teria um alcance de 1.650 milhas, mais do que suficiente para cobrir a distância entre Gibraltar e Malta, com reserva.

Os primeiros dois, decolaram de Gibraltar no dia 25 de outubro de 1942, com duas metralhadores .303 pol para autodefesa, chegando à Malta após um vôo de 5 horas e quarenta e cinco minutos, com o tanque de combustível principal pela metade, embora tenham sido ajudados por um pequeno vento de cauda. Durante as seis semanas seguintes, 15 outros decolaram para Malta, com a perda de apenas um avião. Se outros Spitfires fossem necessário, eles teriam voado diretamente de Gibraltar, mas com o decorrer da guerra, a vitória aliada em El Alamein e a conseqüente expulsão dos alemães da Líbia, o cerco à Malta teve fim.

O envio dos Spitfires para Malta e a defesa aérea da ilha foram uma página de heroísmo e bravura da Royal Air Force. Durante os 7 meses e meio que durou essa batalha, 385 Spitfires decolaram dos porta-aviões, com a perda de apenas 18. Esses Spitfires mudaram o curso da batalha no Mediterrâneo Central, ajudando sobremaneira a vitória aliada naquele teatro de operações. Além disso, mais uma vez ficou comprovada e extraordinária versatilidade do pequeno caça de Reginald Mitchell.

Já desde a 2ª Guerra Mundial, com este episódio, fica evidenciada a importância da alta tecnologia e a capacidade de adaptação às necessidades de uma guerra. Em 1982, novamente, as Forças Aéreas da Grã-Bretanha (Fleet Air Arm e Royal Air Force) demosnstraram sua adaptabilidade e versatilidade, com modificações impostas às suas aeronaves para atender às necessidades e exigências na Guerra das Malvinas. E, além de tudo, um esforço sempre integrado entre as Forças....