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A ascensão e morte do Stuka

 

            Introdução

 

            Com seu perfil de asa angular e sua sirene característica e aterrorizante, o bombardeiro de mergulho Junkers Ju 87 Stuka tornou-se símbolo da Blitzkreig, tática tão bem sucedida empregada pela forças alemães no início da 2ª Guerra Mundial. Com um efetivo que nunca excedeu as 350 aeronaves, as unidades operacionais de Stuka, foram muito além do que esse modesto número poderia realizar. Esse artigo examinará os ingredientes que levaram ao sucesso essa aeronave, bem como as contramedidas que o levaram à morte operacional.

            Até o advento das bombas guiadas, o ataque de mergulho foi o método mais preciso para se lançar uma bomba contra qualquer tipo de alvo. Uma pequena carga de explosivo lançada no lugar adequado, obterá um efeito muitas vezes mais devastador do que uma carga maior, mas lançada sem precisão. Durante os primeiros dois anos da 2ª Guerra Mundial, normalmente operando com total superioridade aérea, as unidades de Stuka eram as únicas forças (tanto do lado alemão como do lado aliado) que podiam bombardear com precisão os alvos inimigos. Aí está a base da formidável reputação do Junkers 87.

 

            A palavra Stuka, é uma contração da palavra alemã Sturzampfflugzeug, que quer dizer, bombardeiro de mergulho. Estritamente falando, o termo se refere a todos as aeronaves capazes de realizar bombardeios em mergulho, e não a este particular avião. Entretanto, o uso popular por muitos anos, fez com que a aeronave Junkers 87 e a palavra Stuka, tornassem-se sinônimos, e assim o serão neste artigo.

            O Junkers 87 foi projetado como um bombardeiro de mergulho puro, e tudo mais neste avião era correlacionado com sua missão. A versão B, produzida até 1941, podia carregar uma carga de bombas de 500 kg. Normalmente esta carga era dividida em uma bomba de 250 kg, sob a fuselagem e quatro bombas de 50 kg sob as asas. Seu armamento defensivo era constituído de duas metralhadoras de 7,9 mm, nas asas, atirando para frente, e de uma ou duas outras metralhadoras atirando para trás, operada pelo radio-telegrafista / metralhador.

            O trem de pouso fixo dava ao Ju 87 um certo ar de antigo, e sua velocidade horizontal não excedia os 206 nós. Entretanto, o arrasto produzido pelo trem de pouso era intencional, que combinado com o freio aerodinâmico, tornavam a aeronave uma estável plataforma de lançamento durante o mergulho de ataque a 80° Durante este mergulho, a velocidade atingia os 300 nós, e se a aeronave não tivesse esse arrasto, atingiria velocidade muito mais elevada, como as aeronaves normais, fato este que não permitiria ao piloto o lançamento da bomba a baixa altura, reduzindo então a precisão do ataque.

 

            O ataque em mergulho

 

            A descrição a seguir, mostra como era um típico ataque do Ju 87. Em seu vôo para o alvo, a aeronave voava normalmente a 3 mil metros (cerca de 10 mil pés). A formação básica das unidades operacionais era o trio de aeronaves, em “V”, e dependendo do tamanho e da importância do alvo, um Staffel (até 9 aeronaves) ou um Gruppe (até 30 aeronaves), voariam em Linha de Frente, com intervalos de 300 metros entre cada trio.

 

           

Para aumentar a precisão do ataque, era necessário que o mergulho fosse realizado contra o vento, e conforme iam chegando à zona de ataque, o líder procurava identificar tal direção, normalmente indicada por alguma fumaça de solo, e alinhava seus aviões contra o vento. Pouco antes do início do mergulho, o piloto compensava sua aeronave para tal atitude, ao mesmo tempo de ajustava o aviso do lançador de bomba para a altitude de lançamento no altímetro (altitude acima do nível do mar).

            No chão do cockpit, entre as pernas do piloto, havia uma pequena janela através da qual ele podia observar o terreno que sobrevoava. Assim que o alvo se mostrasse na janela, uma séria de marcas paralelas o ajudavam a avaliar quando iniciar o mergulho. Imediatamente antes de começar o mergulho, o piloto acionava o freio aerodonâmico (ou de mergulho), em sua posição máxima. Essa ação produzia imediatamente uma atitude forte de nariz para cima, ao mesmo tempo que o compensador automático do profundor era acionado, abaixando o mesmo, para compensar essa atitude.

            Após o líder iniciar seu mergulho, os demais aviões da formação o seguiam. Contra alvas de pequena extensão horizontal, como pontes ou prédios individuais, os Stukas utilizavam de uma formação escalonada, realizando um pell-off e atacando em linha de frente. Contra alvos maiores o melhor defendidos, como portos e fábricas, o ataque era realizado com três aviões ao mesmo tempo, mantendo a formação em V, de modo a dividir a atenção do fogo anti-aéreo inimigo.

 

           

Uma vez posicionado no mergulho com um ângulo de 80°, o piloto colocava o alvo sob sua mira. O mergulho de ataque durava cerca de 15 segundos, tempo suficiente para ajustes. A precisão do ataque dependia do quão constante e preciso era o ângulo de mergulho, e para auxiliar o piloto nessa tarefa, um transformador era desenhado na lateral do canopy, de modo que ele pudesse ter uma idéia do ângulo de mergulho, durante essa fase do atque.

            Quando a aeronave alcançava um ponto cerca de 600 metros (2 mil pés) acima da altitude de lançamento, que fora previamente ajustada no altímetro, um aviso sonoro tocava dentro do cockpit, e normalmente a 700 metros (2.300 pés) acima do nível do solo, esse aviso cessava. O piloto então, pressionava no mancha o lançamento das bombas. As colocadas nas assas eram lançadas imediatamente, mas a posicionada sob a fuselagem, demorava um pouco mais, visto ser necessário que um braço livrasse a hélice da mesma.

            Lembremos que quando os freios de mergulho foram posicionados em sua extensão máxima, antes do início do ataque, o compensador automático do profundor havia se elevado, resultando numa atitude de nariz elevado. A operação de lançamento das bombas, ativava mola muito forte, que fazia com que esse compensador voltasse quase que imediatamente para sua posição neutra. O nariz da aeronave agora compensado positivamente para 6 G, puxava a mesma firmemente, mas de modo suave, para fora do mergulho. A aeronave saía do mergulho a cerca de 300 metros (mil pés) acima do alvo, com uma margem de segurança suficiente para escapar dos estilhaços de sua bomba e do fogo de pequenas aramas.

            Logo que o nariz da aeronave ultrapassava o horizonte, o piloto recolhia o freio aerodinâmico, acelerava o motor, recompensava a aeronave e saía no rumo de fuga pré-determinado.

            Após completaram seu treinamento, os pilotos de Stuka, eram capazes de colocar 50% de suas bombas, num círculo de 25 metros de raio.

 

            Em ação na Polônia

 

            Durante a invasão da Polônia, em setembro de 1939, os Ju 87 estabeleceram uma formidável reputação em combate. Cada Gruppe de Stuka, possuía em sua lotação, três bi-motores Dornier Do-17 de reconhecimento (mais tarde substituídos por caças bi-motores Messerschmitt Me 110), que realizavam uma missão fotográfica antes do ataque, lideravam os bombardeiros até o alvo e novamente realizavam uma missão fotográfica para avaliar os resultados alcançados.

 

            Na Polônia os bombardeiros de mergulho realizaram ataques de precisão contra pontes, ferrovias e concentração de tropas bem atrás da linha de frente, o que agora denomina-se Missões de Interdição Aérea. Também atacaram aeródromos, embora com menos sucesso. Durante o período de tensão que precedeu a invasão, a Força Aérea Polonesa deslocou suas unidades de combate para locais muito bem camuflados, e como resultado, poucas aeronaves de primeira linha foram perdidas durante o início dos combates. Embora a maior parte das principais unidades da Força Aérea Polonesa tenha sobrevivido ao impacto inicial, ela era muito pequena e equipada, em sua maioria, por aeronaves antigas que pouco ou nada podiam ameaçar as operações da Luftwaffe. Os poloneses também não eram bem equipados de unidades anti-aérea, e com total supremacia aérea e sem ameaças de terra, os Ju 87 atacaram com grande eficiência e obtiveram ótimos resultados.

            Embora fale-se muito ao contrário, apenas uma pequena parte das missões dos       Ju 87 foram de Apoio Aéreo Aproximado. Para obterem precisão em seus ataques, os pilotos de Stuka tinham que ter clara visão do alvo, quando estivessem, a pelo menos, 5 mil pés de altura, e tropas camufladas em posição de combate num campo de batalha, não podem ser vistas dessa distância.

            O bombardeiro de mergulho era uma arma nova e efetiva, e acima de tudo, uma arma genuinamente alemã. Nessas circunstâncias, a máquina de propaganda alemã usou e abusou de utilizar o Stuka como seu carro chefe. Entre aliados e inimigos, a lenda do invencível Stuka já se estabelecera.

 

            Blitzkrieg no Oeste

 

            No dia 10 de maio de 1940, forças alemães iniciaram a campanha do Oeste, e as unidades de Stuka lá estavam na linha de frente. Uma dessas unidades era a Trägergruppe 186 (Träger = porta-aviões; esta unidade estava prevista operar a partir do futuro porta-aviões Graf Zeppelin, quando este fosse lançado ao mar). Com 35 bombardeiros e 40 tripulações, era uma típica unidade de combate da época. A TGr 186 entrou em ação praticamente todos os dias, quando o tempo permitiu, com as tripulações realizando, em média, quatro missões diárias. Voou um total de 1.500 missões, perdendo 15 tripulações, ou seja, teve uma taxa de atrito de 1% do total de missões, mas ao final de seis semanas de intensos combates, havia perdido 40% de suas tripulações. Nessa fase da guerra, as perdas em tripulantes eram repostas quase que imediatamente, mas seria um desconfortável problema que cresceria durante a longa campanha.

 

 

 

            No início da 2ª Guerra Mundial, as mais novas peças de artilharia anti-aérea pesada e seus sistemas apoio podiam trazer problemas para os bombardeiros e suas tripulações que voassem a altitudes abaixo de 10 mil pés. Utilizando espoletas de tempo, essas armas forçavam os bombardeiros a atacarem de altitudes acima dos 15 mil pés, reduzindo drasticamente a precisão dos ataques. Contra aeronaves que atacavam em mergulho, essas armas nada podiam fazer, pois seu sistema de acoplamento era lento o suficiente para não conseguir regular as espoletas (apenas em 1944 é que espoletas calibradas pelo radar tornaram-se disponíveis), nem as armas leves, já que esses bombardeiros recuperavam-se de seu mergulho a pelo menos 300 metros de altura, além do alcance das mesmas.

 

            O reverso durante a Batalha da Inglaterra.

 

            A Batalha da Inglaterra, iniciou-se em julho de 1940, e o bombardeio alemão em larga escala contra alvos na Inglaterra, no dia 12 de agosto. Neste dia, Ju 87 atacaram estações de radar em Pevensey, Rye, Dover, Dunkirk (Condado de Kent) e Ventnor, mas os radares provaram ser um alvo difícil de ser atingido, por serem relativamente pequenos e com suas partes vitais protegidas por muros. Entretanto, as torres que suportavam as antenas, eram aparentemente frágeis, representando a única área vulnerável às bombas, mas tinham que receber um impacto direto, fato esse raramente obtido. Todos as estações de radar dessas localidades foram danificadas, mas conseguiram ser reparadas, menos uma, e já estavam operando no dia seguinte.

            O maior ataque coordenado realizado por Stukas aconteceu no dia 18 de agosto de 1940, quando 109 aeronaves, de quatro Gruppen, escoltadas por mais de 150 caças Messerschmitt Bf 109, atacaram os aeródromos de Gosport, Ford e Thornet Island e a estação de radar de Poling.

 

           

Os radares britânicos detectaram a força atacante em tempo, conseguindo fazer com que pudessem ser enviados 68 caças Spitfires e Hurricanes para intercepta-la. Assim que a formação atacante cruzou a costa inglesa, os caças de escolta se dividiram em dois grupos. Metade permaneceu com os bombardeiros e a outra metade desceu até 3 mil pés, em posição de proteger os Stukas quando esses iniciassem seu mergulho de ataque.

            Neste momento, quando a escolta estava enfraquecida, 18 Hurricanes dos Esquadrões Nº 43 e 601 atacaram os bombardeiros, que estava se preparando para iniciar o mergulho  contra Thorney Island. Quatro foram abatidos antes de iniciarem seus ataques. Uma vez iniciado seu mergulho, os Ju 87 eram quase que invulneráveis aos ataques dos caças. O Flight Lieutenent Frank Carey do Esquadrão Nº 43, que liderava o ataque dos Hurricanes disse:

            Durante o mergulho eles eram difíceis de serem atingidos, pois a velocidade de nossos caças aumentava muito rapidamente, que logo os ultrapassávamos. Mas eles não podiam mergulhar para sempre ...

            Assim que os Stukas subiam do mergulho, sua tática evasiva era a de um bando de gansos voando livremente. Como os caças eram mais velozes que os Stukas, se eles os ultrapassavam, ficavam sob o fogo das metralhadoras dos bombardeiros. Essa tática deu resultado no início da guerra, mas agora, eles eram tacados por diversos esquadrões britânicos. As 25 milhas de costa que separavam Bognor de Gosport, ficaram repletas com cerca de 300 aeronaves combatendo entre si.

            O Gruppen que atacou Thorney Island foi severamente castigado: dos 28 Stukas atacantes, dez foram abatidos, um retornou muito danificado sem possibilidade de reparos e quatro retornaram bastante danificados. O comandante do Gruppen estava entre os mortos. Os outros três Gruppen perderam seis aeronaves e tiveram duas danificadas. Considerando-se o ataque como um todo, a força atacante teve 21% de suas aeronaves abatidas ou danificadas, que seria um indicador muito alto a ser aceito.

            Embora os Stukas tivessem sofrido elevadas perdas, eles atingiram os alvos com enorme precisão. Poucas bombas caíram fora do alvo previsto. O aeródromo de Fordo foi posto fora de ação por várias semanas e os de Thorney Island e Gosport passaram a operar com capacidade muito reduzida. Vinte e uma aeronaves da RAF e da Fleet Air Arm foram destruídos no solo. A estação de radar de Poling sofreu danos pesados, embora voltasse a funcionar precariamente alguns dias depois.

            A ação do dia 18 de agosto foi a primeira verdadeira derrota sofrida pelos Stukas, e serviu para alertar uma fraqueza que aconteceria várias vezes, conforme a guerra acontecia: o Stuka era uma excelente arma ofensiva, mas só poderia ser utilizada com total domínio do ar, sem a presença de caças inimigos. Se a superioridade aérea não existisse, as unidades de bombardeiros de mergulho sofreriam pesadas perdas. Os Stukas tinham papel importante nos planos alemães de invasão do sudeste da Inglaterra, e era importante que as unidades preservassem sua força para a batalha principal. Deste modo, as unidades de Ju 87 foram retiradas da frente de combate da Batalha da Inglaterra e não tiveram papel importante daí em diante. A Invasão da Inglaterra nunca aconteceu !!!

 

            Em ação sobre o Mediterrâneo

 

            O próximo teatro de combate dos Stukas foi no Mediterrâneo, quando mais de 150 dessas aeronaves, foram enviadas para a Ilha da Sicília, de modo a apoiar os bombardeiros italianos contra a Ilha de Malta, bem como para atacarem os comboios de suprimento que para lá se dirigiam. Contra navios que manobravam em águas abertas, o bombardeio de mergulho era muito mais efetivo do que o bombardeio convencional horizontal. O piloto de um bombardeiro de mergulho podia manobrar sua aeronave, seguindo as direções do navio em suas manobras evasivas, realinhando sua ponto de lançamento logo à frente da belonave. O curto período de tempo entre o lançamento da bomba e seu impacto na superfície, não permitia que o navio escapasse da mesma.

 

            No dia 10 de janeiro de 1941 o Ju 87 revelou sua devastadora eficiência contra navios, durante ataque contra unidades da Royal Navy, que incluía o novo porta aviões Illustrious, dois encouraçados e oito destroiers, que escoltavam um comboio de suprimento para Malta e Grécia. A força da ataque era constituída de 43 aeronaves de dois Gruppen. Quando as aeronaves alemães foram detectadas pelo radar inglês, os quatro caças Fulmar  da patrulha área, estavam a baixa altitude tentando interceptar uma esquadrilha de torpedeiros italianos. O porta-aviões lançou imediatamente outros quatro caças, mas já era tarde para que eles pudessem subir até aonde estavam os Stukas. Os Ju 87 concentraram seus ataques no Illustrious.

            A ação, ao todo, durou menos do que sete minutos. Ao final, o mais novo porta-aviões da Royal Navy havia sido atingido sete vezes por bombas de 500 kg, estando em condições horríveis. Vários focos de incêndio aconteciam sem controle em seu deck inferior, e ele não podia operar seus aviões. Os lemes emperraram, e a belonave teve que se dirigir à Malta utilizando a força diferencial de suas hélices como meio de controle.

            Um segundo ataque aconteceu naquela mesma tarde, quando 15 Ju 87 atingiram o elevar traseiro e danificaram o dianteiro. O Illustrious conseguiu chegar naquela noite ao porto de Valetta, ainda pegando fogo. Oitente e três marinheiros haviam morrido e mais de uma centena estava ferida.

            Enquanto o Illustrious permaneceu sob reparos em Valetta, foi objeto de outros ataques dos Stukas. O elevador de ré foi atingido, assim como a caldeira, mas apesar de tudo isso, os reparos foram efetuados em tempo recorde. No dia 23 de janeiro, sem que os alemães percebessem, mas ainda incapaz de operar suas aeronaves, o Illustrious zarpou para Alexandria (Egito). Ele levou mais de um ano até voltar a ação.

 

            Contra a União Soviética

 

            A Operação Barbarossa, codenome da invasão da União Soviética, se iniciou no dia 21 de junho de 1941. Para sua execução, oito Gruppen de Ju 87, num total de 324 aeronaves, foram concentrados em aeródromos avançados, próximos a fronteira soviética. O apoio da Luftwaffe ao ataque foi realizado de modo diferente, pois quando o tempo permitia, as unidades de bombardeio de mergulho realizavam missões com cerca de 75% do efetivo da mesma, sendo que esse esforço foi mantido por mais de quatro meses.

            Como sempre, quando se ataca alvos à frente de tropas amigas que estão avançando constantemente, havia risco de que os Ju 87 atacassem tropas amigas, que estavam tentando ajudar. O Hauptmann Otto Schmidt, que pilotou Ju 87 na Geschwader 77 lembra:

            As comunicações entre as tropas da linha de frente e nossa unidade eram freqüentemente ruins, e com a rápida mudança de situação no solo, algumas vezes atacamos nossos próprios homens acidentalmente. A leitura de mapas e a identificação dos alvos era difícil, especialmente quando estávamos sob fogo anti-aéreo. Combinamos então que, a cada dia, uma fumaça de cor diferente seria utilizada como marcadora das nossas tropas, e caso estivéssemos atacando-as, eles lançariam marcadores. Mesmo assim, como já disse, a comunicação entre nós era tão ruim, que muitas vezes decolamos sem saber qual era a cor do dia. O interessante, é que não me lembro do inimigo ter utilizado marcadores de fumaça na tentativa de nos enganar.

 

           

O elevado número de missões diárias, entretanto, trouxe problemas. Durante os primeiros cem dias da campanha, a Luftwaffe perdeu diariamente, em média, 16 aeronaves e teve 10 outras danificadas. Esse número representava apenas 0,3% das missões, uma taxa baixa em termos percentuais, mas que quando se acumula durante um período de intensa atividade aérea, chega-se a 2.600 aeronaves destruídas ou danificadas, o que era desastroso.

            As tripulações treinadas em reserva, que haviam sustentado a Luftwaffe desde o início da guerra estavam se exaurindo e o fluxo de reposição a partir das unidades de treinamento operacional era insuficiente para repor as perdas sofridas. Como resultado, as unidades operacionais operavam com efetivo abaixo do mínimo, tanto em número de aeronaves como de tripulantes. A chegada das chuvas do outono, e em seguida da neve do intenso inverno russo, trouxe uma certa diminuição das atividades aéreas. Naquele inverno, uma a uma, os Gruppen de bombardeiros de mergulho foram transferidos para a Alemanha para descanso e recomposição.

 

            A Blitzkrieg Recomeça

 

            O principal esforço alemão na primavera de 1942 aconteceu no front sul, objetivando conquistar a península da Criméia e a importante base naval de Sabastopol.  Daí, o avanço iria em direção a este para capturar a cidade de Stalingrado e os valiosos campos de petróleo do Cáucaso no sudeste.

            O assalto a Sebastopol aconteceu no dia 2 de junho, e foi a única ocasião durante a 2ª Guerra Mundial, que o cerco a uma bem foritificada cidade teve fim. A Luftwaffe logo estabeleceu superioridade aérea sobre o campo de batalha, e as unidades de bombardeiro de mergulho foram deslocadas para aeródromos avançados, a menos de 10 minutos de vôo de Sebastopol. Em certas ocasiões, as tripulações chegaram a realizar oito missões em um único dia, apoiando a infantaria, eliminando pontos de resistência localizada. Havia entretanto pouca anti-aérea russa e nenhuma oposição aérea. As tropas terrestres solicitavam que os Stukas realizassem seus ataques, lançando bomba a bomba para obterem melhor precisão, ou seja, em um ataque, os bombardeios executavam até cinco mergulhos, fato este que deixava as tripulações exaustas ao final do dia Apesar da enorme resistência soviética, que possuíam maior número de combatentes bem como maior quantidade de armamento, ela foi sendo progressivamente confinada a pequenos bolsões e finalmente no dia 3 de julho, Sebastopol se rendeu.

 

           

Durante o ano de 1942, a vida dos pilotos de bombardeio de mergulho foi ficando cada vez mais difícil. A cada batalha, a oposição aérea inimiga, ficava mais e mais eficiente, além do aumento considerável do número e da eficiência das armas anti-aéreas de pequeno calibre. A arma típica era o canhão de 40 mm Bofors utilizado pelos ingleses e forças aliadas e os 37 mm M 1939 utilizados pelos soviéticos. O Bofors lançava projéteis de 2 libras a uma velocidade de 120 metros por segundo, enquanto que o canhão russo lançava projéteis de 1,6 libras a 150 metros por segundo, com alcance efetivo de até 10 mil pés, capazes de destruir um Ju 87 com apenas um acerto. Visto pelos artilheiros terrestres, uma aeronave em seu mergulho de ataque era praticamente um alvo estacionário, permitindo um tiro praticamente com deflexão zero.

            Com o passar dos tempos, os artilheiros russos ganhavam experiência, concentrando o fogo de seus canhões em apenas um avião de cada vez, aumentando assim, as perdas alemães, não só em aeronaves, mas principalmente em tripulantes, pois os russos não faziam prisioneiros no início da guerra.

            Os dias de glória dos Stukas estavam chegando rapidamente ao fim. Alvos importantes, com pouca ou nenhuma defesa anti-aérea, não existiam. Os Stukas passaram a atacar utilizando um mergulho raso ou mesmo um bombardeio nivelado, que representavam um menor risco, mas eram muito menos precisos. Ao mesmo tempo, as tripulações experientes foram se perdendo, e a eficiência dos Gruppen se reduzindo.

            Durante o ano de 1943, as unidades de Stuka começaram a ser reequipadas com caças-bombardeiros Focker Wulf 190. No verão de 1944, praticamente não existiam mais Stukas operando como bombardeiros. O robusto avião passou a ser utilizado em missões especiais.

 

            O Ju 87 Exterminador de Tanques

 

            Na primavera de 1943 o Ju 87 passou a ter o papel de Exterminador de Tanques. A versão G teve freios aerodinâmicos, lançador de bombas e outros sistemas relacionados removidos, e passou a ser equipada com dois canhões anti-aéreos de 37 mm modificados. Cada canhão era municiado com seis projéteis, que eram disparados um a um, pelo piloto. Embora um projétil de 37 mm não fosse suficientemente poderoso para perfurar a blindagem frontal de um tanque pesado russo, era muito efetivo contra esse mesmo tanque, desde que atingisse o compartimento do motor ou a parte traseira do mesmo.

 

           

O Ju 87G era a arma mais eficiente que os alemães dispunham contra tanques que haviam rompido as linhas de defesa, e isto acontecia com desconfortável freqüência no front leste, durante os últimos dois anos da guerra.  As tripulações dos Stukas tiveram inúmeras oportunidades de atacar esses tanques, e o piloto com mais expressivos resultados foi o legendário Major Hans-Ulrich Rudel, um bravo piloto como também excelente atirador.

            Após a guerra em seu livro, Piloto de Stuka, Rudel escreveu:

            Nós sempre tentávamos atingir os tanques em seus pontos mais vulneráveis. A parte frontal é sempre, em um tanque, a área mais bem protegida, por isso um tanque sempre oferece a seu inimigo essa reagia. A lateral é menos protegida. Mas, para nós, a melhor região a atacar é a parte de trás. Lá é onde está localizado o motor, e para que seu sistema de arrefecimento funcione adequadamente, a blindagem é muito pequena. Além disso, para que o sistema de arrefecimento funcione bem, existem saídas de ar. É uma área boa de se mirar, pois lá também temos o combustível. Quando o tanque está com seu motor funcionando, é fácil identificarmos essa área, pois daí sai fumaça azul da exaustão do motor. 

            Alinhando sua aeronave com sua presa, Rudel utilizava o método de atacar os tanques num mergulho raso, e só atirava quando estava a menos de 300 metros do alvo. Ao final da guerra, Rudel destruiu 519 tanques soviéticos.

 

            Operações noturnas

 

            No ano final da guerra, o Ju 87 foi empregado numa nova missão, qual seja, a de caçador noturno. Noite após noite, essas aeronaves voavam missões sobre a retaguarda inimiga, bombardeando e metralhando qualquer movimentação de tropa detectada. Essas missões infligiram algumas perdas e exerceram pressão sobre o inimigo, mas não iriam mudar o resultado final da guerra. Seu principal resultado foi o de forçar os veículos inimigos a se movimentarem á noite com o farol apagado, causando atraso e acidentes.

 

 

 

            A produção do Ju 87 foi encerrada em setembro de 1944, após terem sido

construídos 5.700 aeronaves. Em abril de 1945, menos de um mês antes do término da guerra, a Ordem de Batalha da Luftwaffe incluía apenas 65 Ju 87 operando como aeronaves de ataque e exterminadores de tanques e 60 como aeronaves de ataque noturno. Apesar de sus obsolescência, a aeronave continuou a voar operacionalmente até a rendição final.

 

            Retrospecto

 

            O Ju 87 esteve em ação do primeiro ao último dia da 2ª Guerra Mundial. Serviu em todos os fronts. Em seus dias de glória, era o terror dos inimigos do Reich, com suas asas angulosas. Com o passar da guerra, com as defesas anti-aéreas mais eficientes e sem a superioridade aérea alemã, a eficiência dos Stukas diminuiu. Embora fosse uma aeronave projetada especificamente para ser utilizada como bombardeio de mergulho, provou ser flexível o suficiente para ser empregada com sucesso como exterminadora de tanques e como ataque ao solo.

            Seis anos de guerra representaram um grande avanço em tecnologia militar, em especial na aviação. Podemos contar nos dedos quais foram as aeronaves que sobreviveram a esse período. O Stuka está entre essas. Como a primeira aeronave a ser projetada para ataques de precisão, o Stuka tem lugar na história da aviação.