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Qual foi o impacto dos ataques dos caças-bombardeiros da Luftwaffe à Inglaterra entre março de 1942 e junho de 1943?

 

Em março de 1942, a Luftwaffe constituiu duas unidades especializadas, cuja missão era a de realizar uma campanha de bombardeios contra navios, instalações militares costeiras e industriais localizadas no sudeste da Inglaterra. Equipando com bombas os caças monoplaces Messerchmitt 109, esses caça-bombardeiros, ou em alemão Jagdbomber, normalmente chamados pelo nome curto de Jabo, atacaram alvos que iam do condado de Kent no leste até Lizard na Cornualia, no oeste. Denominada pelos britânicos de ataques “Tip and Run”, eles aconteceram até o dia 6 de junho de 1943, período no qual a Luftwaffe aumentou sua força de caças-bombardeiros de 28  para 118 aernaves. Tais ataques causaram o seguinte comentário dos britânicos:

 

         ... durante os primeiros três meses do ano (1943), nosso posicionamento em relação às atividades dos caças-bombardeiros não foi satisfatório... o principal problema encontrado diz respeito a como conseguir aviso adequado contra esses ataques à baixa altura... embora as baixas sejam elevadas, a maioria dessas baixas acontece após as bombas terem sido lançadas...

 

 

Sem aviso, os ataques tip and run, cessaram no dia 6 de junho de 1943, após os caças da Luftwaffe terem atacado Eastbourne. A maioria dos caças-bombardeiros alemães foram então transferidos para o Teatro Mediterrâneo, restando somente 42 aeronaves, que passaram a ser empregadas apenas em ataques noturnos.

 

Este artigo analisará o desenvolvimento das táticas alemães de utilização dos caças-bombardeiros antes de 1942, para em seguida discutir o impacto sob o ponto de vista da Luftwaffe, dos militares britânicos e da população civil inglesa da campaha tip and run. Analisará também a decisão alemã de suspender tais ataques,  se tais ataques foram efetivos ou não e as lições aprendidas.

 

A origem do termo tip and run não é bem conhecida, mas foi pela primeira vez aplicada, quando dos ataques em pequena escala e não muito freqüentes, realizados por bombardeiros da marinha alemã contra o sudeste da Inglaterra durante a 1ª Guerra Mundial. Durante a 1º Guerra Mundial, o Kaiser Wihelm II recebeu diversas solicitações para autorizar ataques limitados contra alvos de natureza militar localizados na costa britânica, mas somente em janeiro de 1915 ela concordou com tal pedido, e as instalações militares localizadas no estuário do Rio Tamisa passaram a ser atacadas. Entretanto, a falta de aeronaves adequadas, a distância de suas bases na Bélgica e a prioridade das operações aéreas na frente oeste limitaram a magnitude desses ataques e ao final de 1916, cerca de 25 pessoas haviam sido mortas mas os impactos militar e civil de tais ataques foram mínimos. Nesta época, a Alemanha queria provar a todos a superioridade de seus dirigíveis Zeppelin e de seus bombardeiros estratégicos Gotha, e por isso os ataques passaram a ser dirigidos contra Londres e outras cidades inglesas, algo semelhante a que ocorreu em 1940.

 

Gotha

 

Foi na Espanha, em 1937 que a idéia do caça-bombardeiro ressurgiu, embora alguns caças alemães da 1ª Guerra já tivessem sido equipados com bombas para atacar as tropas aliadas durante o avanço do verão de 1918. Em agosto de 1936, a Alemanha Nazista, numa tentativa de impedir que os Comunistas pusessem um pé na Europa Ocidental, por causa da Guerra Civil Espanhola, começou a apoiar o Exército Nacionalista do General Franco. A Legião Condor, uma unidade aérea semi-autônoma, teria papel importante durante a guerra civil, permitindo que seus pilotos obtivessem experiência de combate, prevendo uma nova guerra mundial e que seus oficiais superiores testasse e aperfeiçoassem novos conceitos de operações aéreas.  Entretanto, apenas em março de 1937, foi que o caça-bombardeiro provou ser uma arma efetiva.

 

O caça biplano, monoplace Heinkel 51 era, até a chegada do monoplano Messerschmitt 109, o principal caça da Legião Condor. Entretanto, estava ficando óbvio que, já em fevereiro de 1937, o He 51, era inferir aos caças soviéticos utilizados pelas forças republicanas. Já que enfrentava inferioridade com seu principal caça, a Legião Condor decidiu aumentar sua capacidade ofensiva, particularmente para a Batalha de Bilbao, ao equipar seus He 51 com bombas de fragmentação, e no dia 31 de março de 1937, essas aeronaves foram utilizadas para bombardear e atacar as posições republicanas com considerável sucesso. Nos dias seguintes, os caça-bombardeiros provaram ser o ideal para neutralizar esses alvos que os bombardeiros de média a alta altitude não conseguiram atacar e destruir.

 

Heinkel 51

 

Paradoxicalmente, foi o sucesso do He 51 como caça-bombardeiro que apressou sua retirada das unidades de combate. Impressionados com a concepção do apoio aéreo aproximado e do bombardeio de precisão, o Junkers Ju 87 e o Henschel 123, ambos bombardeiros de mergulho, foram trazidos rapidamente para a Espanha e utilizados com grande sucesso. Foi esta concepção de operações integradas, refinada na Espanha, e utilizada posteriormente com grande sucesso a partir do dia 1º de setembro de 1939, quando os alemães invadiram a Polônia e novamente em 10 de maio de 1940, quando da invasão da França e dos Países baixos. O Stuka, era perfeito para a Blitzkreig, quando a Luftwaffe possuía total superioridade aérea nos primeiros nove meses da 2ª Guerra Mundial, não havendo necessidade de um caça-bombardeiro específico. Entretanto, essa situação mudaria dramaticamente durante a batalha da Inglaterra.

 

Henschel 123

 

No dia 10 de julho de 1940, a Luftwaffe começou a atacar navios no Canal da Mancha e alvos costeiros, na esperança de atrair a RAF à batalha, e também, por meio de atrito, enfraquecer a capacidade operacional da RAF de interferir com o planejamento alemão de invadir a Grã Bretanha. Com os alemães esperando obter a mesma superioridade aérea anteriormente obtida nas campanhas da Polônia, Noruega, Países Baixos e França, acreditava-se também que o Stuka teria o mesmo sucesso. Entretanto, quando o Stuka foi empregado em massa pela última vez, no dia 8 de agosto de 1940, estava claro que contra caças infinitamente superiores, como os Spitfires e Hurricanes, ele era muito vulnerável, a menos que tivesse uma escolta de caças adequada.  Mesmo com todo esse problema, os comandantes da Luftwaffe insistiram em utilizar os Stukas contra alvos terrestres, e os resultados foram catastróficos: 25 aeronaves abatidas e cinco seriamente danificadas, em apenas dois dias. O Stuka foi então, finalmente retirado de operações e a Luftwaffe não possuía nenhuma outra aeronave para realizar missões de apoio aéreo aproximado.

 

Ju 87 - Stuka

 

Mas a Luftwaffe olhava para o futuro, e acreditava que o bimotor Me 210 seria o sucessor ideal para o Stuka, pois poderia ser utilizado em missões de apoio aéreo aproximado bem como ser capaz de se defender, um verdadeiro caça-bombardeiro como o He 51  havia sido. Entretanto o Me 210 estava cheio de problemas técnicos e sua entrada em serviço atrasou. A unidade experimental, que fora formada para desenvolver a concepção de caça-bombardeiro, passou a  testar o caça bi-motor Me 110 e em menor escala o Me 109.

 

Me 210

 

Logo chegou-se a conclusão que o Me 110 era uma aeronave lenta e vulnerável após lançar suas bombas, com o sucesso sendo obtido por pura habilidade de seus experiente pilotos. A solução seria utilizar o Me 109, um excelente caça e com capacidade de se defender.

 

Me 110

 

Relatório da Inteligência Britânica datado de 21 de outubro de 1940, resumia tudo o que já havia sido estudado e testado sobre bombardeios com o Me 109, sendo considerada a data em que a RAF tomou conhecimento pela primeira vez da existência de caças-bombardeiros na Luftwaffe, embora um Me 109, capturado no dia 7 de setembro de 1940, estivesse equipado com porta-bomba e um sistema de lançamento da mesma.

 

Dias depois, em 15 de setembro de 1940, um ataque contra ferrovias realizado por uma esquadrilha de Me 109 provocou enorme alvoroço da imprensa britânica como sendo algo imoral !!! Relatórios oficiais entretanto diziam que as unidades de caça alemães estavam praticando lançamento de bombas de 250 e 500 kg desde julho de 1940, e que 1/3 das aeronave disponíveis estavam sendo convertidas para caças-bombardeiros. Entretanto, na época que este relatório foi escrito, a fase dos caça-bombardeiros na Batalha da Inglaterra já estava praticamente terminando.

 

Após o grande ataque a Londres realizado no dia 15 de setembro de 1940, e o fracasso dos bombardeios diurnos, a Luftwaffe trocou sua estratégia, e passou a realizar apenas operações noturnas. Do dia 5 de setembro em diante, os pilotos de caça alemães passaram a receber rudimentário treinamento de como empregar seus caças como bombardeiros, utilizando seu colimador como visor de bombardeio. No início de outubro de 1940, essas unidades de jabos passaram a ser utilizadas como bombardeios de média e alta altitude. Quando voando a altas altitudes, eles eram de difícil interceptação, mas os resultados dos bombardeios eram muito imprecisos e logo os ataques começaram a diminuir. Com a chegada do Inverno, veio o mau tempo que restringia as missões, e logo os unidades foram removidas para a Alemanha para descanso e reaparelhamento, e assim, os ataques dos jabos diminuiu ainda mais. No dia 9 de janeiro de 1941, a RAF iniciou uma ofensiva de missões de varredura com caças sobre o continente, que forçou a Luftwaffe a comprometer mais e mais seus caças, a combater esses incursores.

 

É interessante lermos o que os pilotos de caça alemães pensavam a cerca das missões de caças-bombardeiros. O General Adolf Galland, que fora piloto de ataque voando He 123 antes da Batalha da Inglaterra, e comandante de um grupo de caças durante, comentou:

 

... nós pilotos de caça não aceitávamos essa violação em nossas aeronaves, era uma situação muito amarga. Tínhamos feito de tudo para aumentar o desempenho de nossos aviões, de modo a podermos combater os ingleses com alguma vantagem. Descartamos tudo o que era dispensável, de modo a obter uma aeronave mais leve e mais veloz. Sempre solicitamos tanques de combustíveis ejetáveis, para termos um raio de ação maior. Mas em vez disso, eles nos dão suportes de bombas e vemos 1/3 de nossos caças serem retirados do combate aéreo...

 

Adolf Galland

 

 

Galland era claramente contra os jabos, opinião esta compartilhada pela maioria dos pilotos de caça alemães. Tempos depois, mesmo com mais conhecimento sobre o assunto, Galland continuou mantendo seu ponto de vista, e dizia que os resultados militares alcançados foram de pouco valor e que essas missões causavam um efeito adverso na moral dos pilotos de caça.

 

... é muito frustrante para um piloto de caça ter que voar sem ser capaz de tomar a iniciativa do combate. A moral dos pilotos de caça foi afetada. Eles tinham que carregar bombas, lançá-las de grande altitude sem precisão e sem serem capazes de observar os efeitos e adotarem uma atitude passiva em relação aos caças inimigos...

 

Com elevadas críticas do Generalfeldmarschall Göring sobre a atuação dos pilotos de caça e da ineficiência dos caças-bombardeiros, foi uma surpresa que menos de um ano depois, a Luftwaffe tomasse a decisão de recomeçar os ataques de jabos contra alvos ingleses. Era o início da campanha de tip and run da Luftwaffe.

 

Göring

 

As origens dos ataques tip and run da 2ª Guerra Mundial datam de março de 1941. Um grupo de caças, o Jagdgeschwader 2 (JG2) havia continuado a realizar ataques com seus caças-bombardeiros, mas apenas contra navios, sendo um esquadrão havia recebido treinamento especial de ataques a baixa altura enquanto que outros dois esquadrões realizavam ataques esporádicos, quando suas obrigações como caça puro assim permitiam. Em junho de 1941, essas duas unidades foram responsáveis pelo afundamento de dois transportes (3 mil e 5 mil toneladas) e de um petroleiro (2,5 mil toneladas), bem como por danificarem um submarino, um cruzador (10 mil toneladas) e um transporte (3 mil toneladas).

 

Apesar de tudo isso, as missões jabo eram secundárias, até que um oficial, que fora ferido em combate em julho de 1941, retornou ao grupo. Frank Liesendhal, era comandante de um dos esquadrões do JG2, que ainda realizava missões jabo, mas havia sido substituído após ser ferido, mas durante sua recuperação formulou táticas a serem empregadas em ataques de baixa altitude pelos caças-bombardeiros. Ele convenceu seus superiores do valor desse tipo de ataque e o que se poderia obter contra navios. Em novembro de 1941 ele recebeu permissão de formar um esquadrão dedicado.

 

Entre 10 de novembro de 1041 e 18 de fevereiro de 1942, o esquadrão de  Liesendhal treinou e aperfeiçoou táticas a serem empregadas contra navios britânicos. Liesendhal desenvolveu um procedimento que foi rapidamente adotado como padrão de ataque. O procedimento era o seguinte: as aeronaves aproximariam-se dos alvos voando a 450 km/h a uma altura de cinco metros; a cerca de 2 km do alvo, as aeronaves subiriam para até 500 m, antes de nivelarem; a partir daí, mergulhariam num ângulo de 3° a uma velocidade de 550 km/h até o alvo, quando então subiriam levemente e lançariam a bomba.

 

O primeiro ataque tip and run foi realizado contra alvo não específico em Fairlight no condado de Sussex no Dia de Natal de 1941. Em janeiro de 1942 foram realizados ataques contra alvos nos condados de Kent (3), Sussex (9), Dorset (2), Hampshire (1), Cornwall 28) e Ilha de Wight (1). Apesar de tudo, Liesendhal ainda estava tentando convencer seus superiores sobre o valor dos ataques jabo, e sua prova aconteceu no dia 10 de fevereiro de 1942, quando a unidade afundou um navio de 3 mil toneladas na costa de Cornish. No dia 4 de março de 1942, o Comando de Caça da Luftflote 3 autorizou oficialmente as missões jabo, bem como, ordenou que um outro grupo de caças, o JG26, formasse seu próprio esquadrão jabo até o dia 10 daquele mês.

Me 109

 

O JG26 estava numa distinta desvantagem, pois não havia treinado por três meses, como o JG2 fizera. Pilotos com limitada experiência em ataques jabo foram transferidos para o JG26 e outros que não estavam adaptados para a caça ou com problemas disciplinares também o foram. Ao receber esse tipo de piloto, e com pouco treinamento, a operacionalidade do o 10/JG26 (como foi designado)  era questionável. A análise da inteligência britânica demonstra esse desbalanceio entre as duas unidades, durante o mês de março de 1942.  Dezessete ataques tip and run foram realizados pelo JG26 em sua área de operação (Kent e Sussex), enquanto que a JG2 realizou 49 ataques (Hampshire e a oeste). Mesmo levando-se em consideração que a JG26 operava numa área altamente defendida pela anti-aérea e por caças do Grupo Nº 11, os resultados obtidos pelo 10/JG2 eram impressionantes e preocupavam os britânicos. Por exemplo, no dia 7 de março de 1942, quatro Me 109 cruzaram a área de Exmouth-Teignmouth sem serem molestados, atacaram numerosos alvos e até abateram um caça da RAF que havia decolado na tentativa de interceptá-los. Naquele mesmo mês, o 10/JG2 atacou dois comboios, afundando três navios e danificando outros dois.

 

Em abril de 1942, os ataques tip and run aumentaram significativamente, com a Inteligência britânica relatando 156 deles. Abril foi também um mês onde os alvos passaram a ser terrestres, especialmente depósitos de combustível. A Inteligência da Luftwaffe, na 2ªGuerra Mundial, é criticada por ter sido imprecisa e não objetiva, entretanto os alvos atacados pelos tip and run em abril e maio de 1942, mostram um elevado grau de planejamento (ou sorte). Por exemplo, os alemães estavam avisados da existência de depósitos de munição subterrâneos na região de Poole, e sem sucesso tentaram atacá-lo cinco vezes entre abril e maio, enquanto bastaram dois ataques dos jabos a Betteshanger Colliery no condado de Kent para destruí-lo.  Um outro ataque importante foi o realizado pelo 10/JG2 contra o Centro de Pesquisas de Telecomunicações (Telecommunications and Research Establishment – TER) em Worth Matraves em Dorset, que era um dos mais importantes locais de pesquisa, principalmente no que dizia respeito aos estudos dos efeitos da ionosfera nas transmissões Gee (o Gee, era um sistema que permitia que as tripulações de bombardeiros pudessem se localizar, a partir dos sinais emitidos por três pontos fixos distintos, e assim podiam bombardear alvos encobertos por nuvens ou à noite). Na manhã do dia 6 de abril de 1942, três aeronaves do 10/JG2 atacaram as instalações da TER causando enormes danos; dois dias depois, na hora do almoço, outro ataque vitimou dois técnico, feriu seis, e uma das bombas danificou uma torre do Sistema Gee, deixando-a inoperante por quatro dias. Por causa do risco de novos ataques, o centro de pesquisas foi removido para Malvern no condado de Worcestershire em maio.

 

Devemos realçar que durante o ano de 1942, o efetivo combinado da 1-/JG2 e da 10/JG26 raramente ultrapassou as 28 aeronaves, entretanto a eficiência dos equadrões foi tão boa, que os britânicos tiveram que se concentrar na defesa contra os ataques tip and run.

 

As únicas armas anti-aéreas que podiam combater esses ataques relâmpagos e rasantes eram os canhões anti-aéreos leves de 40 mm. Quando os ataques tip and run começaram, o Comando de Artilharia Anti-Aérea possuía apenas 43 dessas armas na costa sul, todas posicionadas junto a instalações militares, alvos que não eram atacados pelos jabos. e mesmo assim, essas armas tinham seus pontos fracos, com um ou ambos tubos não operassem corretamente.

 

Ao final de abril de 1942, a Luftwaffe começou a perceber a importância dos ataques tip and run, principalmente contra navios. Entre julho de 1941 e fevereiro de 1942, as aeronaves alemães afundaram ou danificaram apenas 32% dos navios que atacaram durante o dia, mas no período de março a outubro de 1942, este número dobrou. Mesmo assim, a Luftwaffe não expandiu as duas unidades, só o fazendo ao final de maio, realocando-as e colocando-as, primeiro, operacionalmente sob o comando do Comando de Caças da Luftflote 3 e mais tarde administrativamente. Era uma clara indicação da importância que a Luftwaffe estava dando aos caças-bombardeiros. Então, em meados de junho de 1942, ambas as unidades foram retiradas da linha de frente e transferidas para próximo a Paris, onde seriam reequipadas com aeronaves Focke Wulf 190, e por isso os ataques tip and run, diminuíram de 105 em maio, para 77 em junho e 37 em julho.

 

FW 190 da JG2

 

Essa evolução foi uma preocupação para os britânicos. O Fw 190 era uma aeronave superior, em todos os aspecto,s com exceção ao raio de curva, ao melhor caça aliado daquela época, o Spitfire Mk Vb. Ele era 50 km/h mais veloz a 25 mil pés e girava mais rápido do que qualquer outro caça aliado da guerra. Como caça-bombardeiro, ele podia carregar uma bomba de 500 kg sob a fuselagem, e outras quatro de 50 kg sob as asas, mais do que dobrando a capacidade d o Me 109.  E mais, se já era difícil abater um Me 109 (a 10/JG2 havia perdido apenas quatro aeronaves para a anti-aérea e duas para os caças da RAF, enquanto que a 10/JG26 havia perdido três para a anti-aérea e um para os caças), imaginem um Fw 190 que era mais veloz, mais adequado para a missão pois seu motor era refrigerado a ar, sua construção de um modo geral era mais robusta, mais adequado para a missão e mais capaz de se defender quando confrontado com os caças da RAF.

 

A 10/JG2 realizou sua primeira missão com o Fw 190 no dia 7 de julho de 1942, tendo afundado um navio e danificado outros dois. Dois dias depois obteve o mesmo sucesso, ao afundar dois e danificar um navio. Daí em diante, pelo menos um ataque tip and run foi programado e realizado, com os britânicos nada podendo fazer para combate-los.

 

Como o radar era praticamente incapaz de detectar esse tipo de ataque, a primeira linha de defesa passou a ser o Corpo de Observadores. Os postos receberam ordem de lançar um foguete sinalizador (conhecido como Totter), logo que observassem aeronaves voando baixo, bem como de transmitirem o código Rats para o Centro de Observação. O Centro então, transmitiria para o Controle de Setor, que ordenaria a decolagem imediata de caças da RAF, alocados naquela área, para interceptar os incursores, ou direcionaria caças já voando.

 

O sistema Totter e Rats era ainda inadequado, e somente em novembro de 1942, é que a RAF decidiu colocar permanentemente dois caças em patrulha e outros dois em alerta no solo, em pontos vulneráveis, numa tentativa de melhorar a interceptação, que mesmo assim continuou falha. E mais, o espaçamento entre os postos do Corpo de Observadores, permitia que os caças alemães penetrassem no espaço aéreo inglês sem serem vistos. Por exemplo, o ataque acontecido contra Salisbury em Wiltshire no início de agosto de 1942, foi tão de surpresa e rápido, que nenhum caça da RAF decolou para intercepta-los e as sirenes de ataque aéreo só soaram quando os dois Fw 190 já estavam sobre a Ilha de Wight, retornando para sua base. Decidiu-se então, criar 150 postos satélites conectados ao posto principal mais próximo, num cinturão de 45 km, cuja única função seria informar a presença de aeronaves voando rasante. As duas unidades da Luftwaffe neste período, já estavam completamente equipadas com o Fw 190, e os ataques tip and run continuaram a serem realizados, com total impunidade, embora no final do mês cada uma delas tenha perdido um caça para a anti-aérea dos navios que foram atacados. Essas duas perdas, resultaram na morte de dois pilotos experientes, sendo que um deles era Frank Liesendahl, mas nessa época a Luftwaffe ainda dispunha de reforços treinados, e as perdas não foram tão sentidas.

 

O início de agosto de 1942 apresentou uma mudança dos padrões de ataque. O 10/JG26 passou a ser subordinado ao Comando de Caça da Luftflote 2 e por isso seus ataques foram concentrados em alvos da costa sudeste da Grã Bretanha, levando as defesas inglesas ao seu limite. Enquanto isso, o 10/JG2, além de atacar os navios e alvos costeiros, se voltou contra alvos específicos como Bodmin e Helston na Cornualha, Salisbury e Yeovil, visando a indústria inglesa.  Num desses ataques, contra a fábrica Westland, apenas duas bombas de 500 kg destruíram 15 construções, mataram três pessoas e feriram 26. A audácia e o sucesso desses ataques levou o Ministério do Interior a realizar reuniões e análises profundas do que poderia acontecer, caso a Luftwaffe aumentasse seu esforço nesses alvos.

 

HMS Berkeley, afundado em Dieppe

 

 

Nas semanas seguintes, alvos costeiros ocasionais foram atacados, mas o aumento da atividade aérea e marítima aliada, devida ao ataque de uma força canadense contra o porto de Dieppe, atrapalhou um pouco as missões alemães. Dieppe foi um campo de batalha ideal para os caças-bombardeiros. O 10/JG26, que era baseado próximo ao porto, atacou os navios, enquanto que o 10/JG2 focou mais nos alvos terrestres. As duas unidades afundaram dois destroiers, dois navios de desembarque e dois outros, danificaram um destróier, um navio de desembarque, dois outros e abateram um Spitfire, sem terem perdas. Os ataques tip and run continuaram a ser uma fonte constante de irritação e ameaça, mas agora as defesas inglesas foram forçadas a agir mais eficazmente.

 

Os meses de setembro e outubro de 1942, presenciaram uma redução no número de ataques tip and run, embora focados em alvos nos condados de Kent e Sussex. De modo a proporcionar mais sucesso nesses ataques, os jabos passaram a ser escoltados por caças, mas as perdas que aconteceram foram quase todas devidas a anti-aérea.

 

Nessa época, a RAF recebeu uma nova aeronave. O caça Hawker Typhoon foi introduzido no serviço no início do verão de 1942, mas seu desempenho como caça puro foi desapontador. Em agosto de 1942, os três comandantes de esquadrões de Typhoon informaram que o Spitfire era a aeronave adequada a realizar as missões ofensivas, enquanto que o Typhoon, com sua velocidade e armamento era adequado a combater os Fw 190 nos ataques tip and run. Deste modo, as três unidades foram distribuídas ao longo da costa sul, leste e sudeste, e ao final de setembro já eram cinco unidades sendo empregadas nessas missões.

 

Hawker Typhoon

 

A tática adotada pelos esquadrões de Typhoon era outro problema a ser enfrentado pela RAF. Um dos esquadrões adotava o seguinte: dois caças ficavam patrulhando a baixa ou baixíssima altura, enquanto que outros dois ficavam prontos para decolarem, o que perfazia um total de 15 missões por dia. As aeronaves que estavam no ar, se posicionavam a cerca de 5 milhas da costa e lá esperavam os alemães. Havia ainda um outro problema: os Typhoon, de alguns ângulos se assemelhavam aos Fw 190, e a solução encontrada foi pintar o cubo da hélice de branco e parte inferior das asas com faixas branco e preto.

 

Uma das preocupações que os pilotos da RAF tinham era com a temperatura do motor, além é claro de manter um olho nos alemães e outro nos seus amigos Spitfires, que podiam confundi-los. A defesa anti-aérea, os balões e mesmo os penhascos da costa inglesa eram outros obstáculos aos Typhoons. Em novembro de 1942, um Typhoon foi abatido pela anti-aérea e dois perdidos por causa do mau tempo.

 

Os resultados obtidos pelos Typhoons não foi o esperado, mas havia uma razão para isso. No dia 8 de novembro de 1942, forças americanas desembarcaram no noroeste da África e os alemães imediatamente movimentaram unidades de caça para o sul da França, incluindo os esquadrões de caça-bombardeiros, como uma preocupação para um possível desembarque aliado. Ambos os esquadrões de caça-bombardeiros permaneceram no sul da França por pouco mais de um mês, e entre 1º de novembro e 16 de dezembro de 1942, apenas um ataque tip and run foi realizadao contra a Grã-Bretanha, e quem realizou este ataque foi uma unidade de Me 110, que fora retirada do norte da África, para ser equipada com Fw 190.

 

Entretanto, mesmo após o deslocamento para o sul da França e a inatividade por quase dois meses, os novos aviões britânicos e suas táticas de defesa não conseguiram defender o solo pátrio do maior ataque da Luftwaffe desde 1940. Hitler, numa retaliação a ofensiva do Comando de Bombardeiro da RAF, ordenou um ataque maciço contra Canterbury na tarde do dia 31 de outubro de 1942. O ataque foi realizado apenas por caças-bombardeiros, que com a escolta, chegou a um total de 62 Fw 190.

 

Esse ataque complicou a situação das defesas britânicas. A formação alemã aproximou-se da costa de Kent, voando rente as ondas, em três levas. Lançaram um total de 31 bombas, que mataram 32 pessoas e danificaram diversos prédios. Embora a RAF tenha divulgado a destruição de 10 aeronaves alemães, a realidade foi que a Luftwaffe perdeu um caça-bombardeiro para a anti-aérea, teve um outro danificado pelo cabo de um balão, mas conseguiu retornar a sua base e uma das escoltas foi abatida por caças da RAF. A escolta alemã abateu dois caças ingleses. Relatório inglês informou que 70% das bombas caíram em algum alvo significativo.

 

Foi o último ataque tip and run de peso, realizado pela Luftwaffe no ano de 1942. Relatórios ingleses, produzidos pela Key Points Intelligence Directorate dizem que, os objetivos desses ataques foram as instalações de gás e de combustível, as ferrovias e na tentativa de causar terror a população, zonas residenciais e o centro comercial de cidades. Os depósitos de gás e de combustível, localizadas próximas a costa, eram um alvo excelente para os alemães, tendo em vista as recomendações governamentais de não se estocar esse material nas residências.

 

O relatório do War Office, era ainda mais confuso. Levando-se em conta que o número máximo de caças-bombardeiros disponíveis pela Luftwaffe na Zona do Canal, era de no máximo 28 aeronaves, e que 40% de todos os ataques diurnos acontecidos em 1942 foram realizados pelos jabos, com preponderância dos ataques rasantes na segunda metade do ano, quatro em cinco ataques dos jabos foi realizado contra instalações militares, com uma eficiência de 71% e com baixíssimas perdas.

 

Do ponto de vista britânico, um pequeno número de caças-bombardeiros alemães estavam causando muito mais trabalho ao Corpo de Observadores, a RAF e a anti-aérea, do que deveriam causar. Por outro lado, esses ataques fizeram com que fossem criados postos satélites do Corpo de Observadores, acontecesse um aumento dos caças de defesa utilizando novas e nunca antes tentadas táticas, bem como aumento sensível das defesas anti-aéreas. O número de peças de artilharia anti-aérea leve, saiu de 43 em março de 1942 para 543 em novembro. Operadores de holofotes foram treinados e transferidos para unidades de artilharia anti-aérea, bem como cerca de 400 homens do RAF Regiment (Infantaria da RAF) e da Royal Navy. Mas com tudo isso, o aumento do sucesso em defender o espaço aéreo britânico não acompanhou o aumento material e pessoal. O ponto fraco ainda era o aviso antecipado dos ataques. Dos 44 ataques realizados no mês de agosto de 1942, apenas oito foram detectados antecipadamente pelo radar.

Só para exemplificar a ineficiência das defesas britânicas, os alemães realizaram um ataque de represália no dia 20 de janeiro de 1943, por causa de um ataque do Comando de Bombardeiros contra Berlim na noite de 16 para 17. Esse ataque foi contra as Docas de Londres, e executado por 28 jabos, ao meio dia, enquanto que outros 12 atacavam a Ilha de Wight como diversificação. A escolta era composta de 16 Fw 190, além de 39 caças que atacavam alvos diversos em Kent.

 

O ataque pegou os ingleses completamente despreparados. A barreira de balões de Londres, estava recolhida para manutenção, a as ruas ao redor das docas estavam cheias de trabalhadores que saíam para o almoço. Com total impunidade, os jabos lançaram suas bombas e metralharam os prédios, antes de se dirigirem para o sul. Um depósito de combustível foi destruído, o Royal Naval College em Greenwich foi atingido, bem como a Usina de Energia de Depford West e a Surrey Commercial Docks. Os alemães derrubaram 10 balões, que foram içados rapidamente durante o ataque.

 

A perda de vidas humanas foi elevada e o efeito moral considerável. Uma escola foi atingida, e 38 crianças e seis professores morreram, além de muitos feridos, prédios e veículos destruídos. O ataque foi tão sério, que pela primeira vez os tip and run foram debatidos na House of Commons (Câmara dos Deputados). Uma petição foi feita pelos moradores das áreas atingidas, questionando a capacidade de se prevenir e de se defender desse tipo de ataque. A resposta dada por Sir Archibald Sinclair, Secretário de Estado da Aeronáutica, foi de que os balões estavam abaixados para manutenção, e que eles eram a melhor defesa contra esse tipo de ataque e que tudo estava sendo feito na tentativa de se combater esse tipo de ataque, com a aplicação de táticas especiais. O ataque recebeu publicidade nunca antes dada na imprensa britânica.

 

O fato era que a capital britânica, fora atacada à luz do dia, por uma força que penetrou cerca de 160 km pelo território inglês, a alta velocidade e a baixa altura, lançou suas bombas contra alvos pré-determinados, com bons resultados e retornou a suas bases, incólume.

 

Quando o tempo permitia, durante os meses de janeiro e fevereiro, ataques tradicionais tip and run  foram realizados, contra alvos localizados desde Margate (costa leste) até Torquay (a oeste) – depósitos de combustíveis, hotéis onde tripulações em treinamento ficavam hospedadas, entroncamentos e ferrovias, e mais freqüentemente, o cento de cidades.