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USAF 50 Anos e a FAB

 

        Com sincero respeito e toda admiração associo-me, às atividades do registro do 50°  aniversário da sempre poderosa USAF.

        Certamente o pioneirismo comercial dos irmãos Wright ao venderem ao Exército um de seus aviões, em 1909, levou à incessante corrida tecnológica que muito impulsionou a aviação militar em todo o mundo.

        Ainda que o pensamento profético do uso de aeronaves com fins bélicos tenha surgido e despontado pioneiramente na Europa - com Douhet e Trenchard - não foi menor a sensibilidade do aviador norte-americano, sintetizada com a tenacidade, visão, pertinácia e extrema capacitação de seu pioneiro dogmo-pragmático Billy Mitchell. Na realidade, com o idioma inglês e talvez a sensibilidade “mais” norte-americana é que surge toda a força do denominado Air Power. Indubitavelmente toda esta força aí contida só pode ser compreendida totalmente ao fim da 2ª  Guerra Mundial, quando consagrada  pelo Gen. H. Arnold, embora sua visão de Poder Aéreo já sintetizava-se desde o surgimento da Fortaleza Voadora (B17), sobre a qual ele dizia - The Flying Fortress is the Air Power. Sua síntese de Poder Aéreo ao final daquele conflito identifica todos os fatores integrantes do mesmo - A Força Aérea, a industria aeronáutica, a infra estrutura e até a aviação civil. Tal conceito estendeu-se por nossas escolas de pensamento tornando-o até uno e indivisível, para efeitos acadêmicos e como esforço para a própria guerra. Sua concepção futura como Poder Aeroespacial nunca soou-me muito bem e entendo que não terá mesmo força prática. Hoje fala-se com desenvoltura do Airspace Power, mas pensa-se em termos práticos em Air Power ( é mais compacto, tangível, visível e mensurável).

 

 

        Ainda que o vôo pioneiro do brasileiro Alberto Santos Dumont, realizado em 23 de Outubro de 1906, em Le Bourget, Paris, pouco tenha influenciado o desenvolvimento do emprego militar do avião para o Brasil, mesmo assim, dez anos depois, em 1916 era criada a primeira Escola Nacional de Aviação, no transcorrer da 1ª Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, durante aquele conflito, cerca de seis aviadores navais brasileiros eram enviados a Inglaterra para treinarem e engajarem-se junto às forças aliadas no continente europeu. À partir daí e pelo desempenho marcante da França naquele conflito mundial, o Brasil, particularmente o Exército Brasileiro, trouxe uma Missão de Treinamento do Exército Francês para preparação de seus quadros. Incluía-se também o preparo de emprego de Aviação também arma do Exército. A Marinha - as always - tinha sua própria aviação e sua visão particular do espaço aéreo.

        Os anos se passam e ainda sob a marcante influência francesa, chega-se às portas da 2ª Guerra Mundial. O final da década de 30 e os primórdios dos anos 40 levam a nós brasileiros perceberem a importância futura, e já presente, do emprego militar do avião e a identificação em nosso  idioma do forte AIR POWER, bem traduzido como “PODER AÉREO”. Antecipamo-nos à visão dos que bem o empregaram na 2ª Guerra e buscamos centraliza-los - em conceitos e idéias - sob um só guarda-chuva - um só Ministério, em uma só Secretaria de Estado, o Ministério da Aeronáutica , englobando a Aviação do Exército, Naval, a Civil, aeroportos, comunicações aéreas, trafego aéreo e futuramente, até mesmo a indústria aeronáutica. Criou-se então em 20 de Janeiro de 1941 o Ministério da Aeronáutica e as Forças Aéreas sob um comando unificado.

        Excelente solução que se faria importante no transcorrer da 2ª Guerra Mundial e nos anos que se a seguiriam. Mas foi justamente à partir daí que a Força Aérea Brasileira abandonou a influência francesa e passou a absorver celeremente, o pensamento conceitual do emprego dos meios aéreos dos Estados Unidos - Army Aviation Corps, posteriormente Army Air Force e a Naval Aviation.

        Tal influência fez-se presente na formação de nossas equipagens, nos Estados Unidos, incluindo pilotos, navegadores e  bombardeadores, durante a guerra e ainda outros da reserva perfazendo quase 1000 tripulantes. Outrossim, nossa unidade de caça que dirigiu-se ao front europeu (Itália) o 1º Grupo de Caça, o qual integrou o 350th Fighter Group do XXII Comando Aéreo Tático   recebeu todo seu treinamento em Orlando (FL), Agua Dulce  (Panamá) e Long Island (NY), absorvendo forte influência  das concepções táticas e doutrinárias norte-americanas, já conhecidas em combates. Ao mesmo tempo inúmeros oficiais cursavam a Escola de Tática de Randolph Field e outros o Curso de Estado Maior em Fort Leavenworth. Compondo ainda quadro de influência em nossa formação há que se citar a criação e treinamento de nossas primeiras unidades de patrulha e que tanto vigiaram e protegeram os comboios nas rotas do Atlântico Sul - isto deveu-se a uma unidade de treinamento móvel da marinha norte-americana que com aeronaves PV-2, Ventura, prepararam equipagens no Nordeste do Brasil - o USBATU (United States Brazil Air Traning Unit).

 

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Falar destas iniciativas e da preponderante influência norte-americana em nossos conceitos enche-nos de orgulho ao verificar que dois anos após o término da 2ª Guerra Mundial, pode os Estados Unidos entenderem a importância de um poder aéreo unificado, criando a USAF, sem que pudesse ou devesse extinguir os empregos táticos de forças aéreas militares, da aviação naval, da aviação dos fuzileiros, da guarda costeira etc, modelo que deve adequar-se às exigências daquele país. Nossas exigências e necessidades, entretanto eram outras.

A Força Aérea Brasileira, estou seguro associa-se às comemorações dos 50 anos da USAF evocando a extraordinária presença de um de nossos pioneiros da aviação militar, Eduardo Gomes, o patrono da Força Aérea Brasileira e responsável maior por seu amalgamento conceptual e doutrinário. Se o ato de unificação do poder aéreo no Brasil deveu-se à decisão do governo de então e à influencia marcante de pilotos militares e navais de outrora onde pontifica-se Netto dos Reis, Lysias Rodrigues, Antonio Cabral e Nero Moura. A posição de Eduardo Gomes sempre foi congregadora dos recursos humanos e necessidades materiais para a empreitada da unificação do poder aéreo. Eduardo Gomes foi oficial de artilharia tornando-se nos anos 20 observador aéreo e, só mais tarde, a exemplo de Trenchard tornou-se piloto. Com experiência de emprego bélico de aeronaves por ocasião de lutas insurrecionais internas pode avaliar, neste continente chamado Brasil, o valor da aviação. Cessadas as hostilidades internas no início dos anos 30, soube Eduardo Gomes priorizar a iniciativa integradora e desenvolvimentista deste imenso território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados de área, com linhas de fronteira de 16 mil quilômetros com outros países da América do Sul e de 7,5 mil quilômetros de litoral atlântico. Foi com tal visão dessas dimensões que assumiu duas das mais importantes iniciativas da pioneira aviação militar brasileira: o incremento do transporte aéreo e a implantação da aviação de patrulha. A primeira, através de uma certa ação política criando o denominado Correio Aéreo Militar, depois Correio Aéreo Nacional, e com isto fazendo com que os aviões militares abandonassem suas bases no Rio de Janeiro e voassem para mais longe em iniciativas pioneiras de desenvolvimento numa estratégia de integração de um grande território através de amplas missões de paz. Esta ação permitiu tal treinamento de pilotos que durante a 2ª Guerra Mundial mais de 500 aeronaves fossem transladadas dos Estados Unidos para o Brasil com uma perda inferior a 0,5% - sucesso absoluto! O desenvolvimento da aviação de transportes no Brasil caminhou em passos firmes e largos e hoje afirma-se voando pelo mundo todo em missões de paz, a serviço da paz, em apoio as operações de paz da ONU (Suez, Santo Domingo, Angola, Moçambique, etc).

Sua outra grande iniciativa deu-se durante a 2ª Guerra Mundial, quando, além do envio duma unidade de combate para o Mediterrâneo criou-se esquadrões de patrulha no Atlântico Sul. Ao Brigadeiro Eduardo Gomes coube o comando de todo litoral brasileiro, a vigilância e guarda de todos os comboios que em nossas águas transitavam num tremendo esforço de guerra, o que bem realizou em excepcional trabalho conjunto com o Alm. Ingram da marinha norte-americana. Administrou a criação de todas as bases aéreas construídas pelos norte-americanos desde Macapá até Vitória, incluindo Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió, Salvador, Caravelas, e sem que a soberania brasileira fosse maculada possibilitou a operação de aeronaves norte-americanas isoladamente ou em conjunto com a já unificada Força Aérea Brasileira, formalizando o conhecido Trapolim da Vitória para o norte da África.

Suas ações estenderam-se também com a criação e sistematização do tráfego aéreo quando na chefia da então Diretoria de Rotas Aéreas. Por tudo isto o Brigadeiro Eduardo Gomes recebeu meritórias condecorações de reconhecimento dos governos norte-americano, francês e britânico, pilares das forças aliadas na 2ª Guerra Mundial: Comand Pilot, Air Corps USA, Legião do Mérito USA, Ordem do Império Britânico e Legião do Mérito da República Francesa.

Eduardo Gomes foi Ministro da Aeronáutica por duas vezes, em 1955 e em 1965/66/67. Foi candidato a presidente da república por duas vezes também.

Brigadeiro Eduardo Gomes, patrono da Força Aérea Brasileira sintetiza, juntamente com o também ex-ministro da Aeronáutica Brigadeiro Nero Moura, comandante do grupo de caça do Brasil na Itália e patrono da aviação de caça, todo o conceito brasileiro de aplicação do poder aéreo nas peculiares condições brasileiras.

Neste final de século, quando assistimos à notável evolução da USAF, a partir de 1947 data de sua criação, desejamos testemunhar e reverenciar o notável esforço e competência de nossos irmãos do norte das Américas em oferecer ao mundo o testemunho e prova da inconteste visão do PODER AÉREO.

A recente Guerra do Golfo mostrou definitivamente ao mundo as excelências de um bem aplicado poder aéreo, comprovando a necessidade da existência isolada da Força Aérea - não somente uma arma - ter um comando unificado e sobretudo ser a única força capaz de obter o CONTROLE DO AR, significando tal que se o poder aéreo não vence as guerras sozinho, sem sua presença ninguém vencerá qualquer guerra.

Parabéns USAF, pois somos todos irmãos na reverência ao Poder Aéreo.

 

 

MURILLO SANTOS é Tenente Brigadeiro do Ar da Força Aérea Brasileira (FAB), na reserva desde 1993. Piloto de bombardeiro, transporte e helicóptero anti-submarino, com 11.000 horas de vôo após 45 anos de serviço. Foi instrutor em todas as Escolas da FAB, além de realizar Cursos de Estado Maior na RAF, de estágio de ensino na Air University. Cursou ainda o Industrial College of the Armed Forces. Escreve para vários jornais e revistas, além de ser autor de dois livros profissionais sobre a evolução do Poder Aéreo. Foi Chefe do Comando Geral de Apoio, Chefe do Estado Maior da Aeronáutica e Conselheiro Militar do Brasil junto à ONU. É também professor de Educação Física. Faleceu no dia 7 de setembro de 2002.